O Pedido de Salvaguarda e o Preconceito Nacional

Muito se tem falado e polemizado a respeito do pedido de salvaguarda do setor vinícola brasileiro apresentado ao Ministério da Indústria e Comercio em meados de março deste ano.

A primeira impressão era a de que se tratava de uma medida autoritária de poucos e grandes grupos vinícolas nacionais que se sentiriam “ameaçados” pela invasão cada vez maior de rótulos estrangeiros no mercado brasileiro.  Falava-se em dobrar a tributação dos importados – o que gerou grande revolta por parte das empresas importadoras, que seriam as principais prejudicadas.

Em resposta, houve medidas de retaliação por  parte de sommeliers e proprietários de restaurantes  que decidiram retirar das suas cartas de vinhos os rótulos nacionais. Tal medida incomoda muito os produtores brasileiros que disseram não ter envolvimento e tampouco interesse em apoiar tal pedido de salvaguarda. Ela seria autoria de órgãos institucionais como IBRAVIN e FECOVINHO.

O que as vinícolas brasileiras realmente reclamam é uma redução ou isenção de impostos de “subprodutos” que aumentam o preço final da bebida, como ocorre, por exemplo com o custo de rolhas, garrafas e barris de carvalho. E o argumento mais sólido é, a meu ver, o de que o vinho é produto fiscalizado como um alimento normal em sua produção, porém sofre tributação tão alta como cigarros e destilados.

Seja por uma moeda forte – o real – ou por um Brasil em crescimento que é cada vez mais visto como um ator no mercado global, o fato é que hoje encontramos opções de rótulos de vinhos como nunca antes visto. E os brasileiros passaram a ter o vinho como algo cada vez mais  presente no cotidiano. E não queremos que isso mude.

Vinho mais caro – seja ele nacional ou importado –  não interessa a ninguém. Os maiores prejudicados são os consumidores. A política de sobretaxar o importado em prol do produto nacional pode não ser a melhor saída. Incentivar, através de subsídios, os viticultores brasileiros parece ser a medida mais sensata que também estimulará o crescimento do setor.

Cabe também ao consumidor quebrar certos tabus e perder o preconceito com o vinho nacional. A má fama dos vinhos de mesa parece alastrar-se pelo universo dos vinhos finos – de variedades viníferas. Além disso, as pessoas precisam conhecer as vinícolas que ainda não inundam as prateleiras dos supermercados. O vinho tupiniquim é mais do que meia dúzia de grandes marcas.

A mesa do brasileiro apreciador de vinho deve ser eclética, onde um Champagne, um Cabernet de São Joaquim, um Malbec de Mendoza e um refrescante espumante de moscatel do Vale do São Francisco dividam as atenções ao longo de um jantar.

Artigo publicado originalmente na Revista Vinícola (p. 50)

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