O brasileiro mais bordeaux… (ou a vertical dos Luízes)

Participar da degustação vertical de um vinho é uma experiência única. Nela, provam-se diferentes safras de um mesmo rótulo e analisam-se os diferentes estágios de evolução do vinho e características marcantes de cada um. Melhor ainda, quando se tem o enólogo ao lado explicando como foram as características climáticas de cada ano de colheita e quais as praticas enológicas adotadas na elaboração de cada vinho.

Assim foi a degustação da Vallontano, vinícola de Bento Gonçalves, apresentada pelo enólogo da casa Luis Henrique Zanini, na qual foram provados Cabernet Sauvignon de cinco diferentes safras: 2000, 2002, 2004, 2005 e 2007.

Foi um privilégio organizar e fazer parte da primeira degustação vertical realizada deste vinho, grande idéia de Luiz Horta – colunista de vinhos do Estadão – para abrir o ciclo de degustações do 6º Paladar Cozinha do Brasil.

Zanini disse ter saído em busca de safras antigas nas adegas da vinícola que ele nem sabia  ao certo se existiam. Estava curioso em saber a receptividade dos seus vinhos além de sentir em que estado andavam os seus tinhos com dez anos de idade ou mais.  Terroirista, como ele mesmo se define, Zanini não gosta de ser chamado de enólogo e defende que o vinho é o reflexo do terroir. O vinho nasce no vinhedo e, segundo ele, o trabalho mais árduo é o cultivo da vinha para obtenção de uvas de qualidade.

Antes do início, definimos – Luis Zanini, Luiz Horta e eu – o que precisava ser decantado ou resfriado para um melhor desfrute e debatemos qual seria melhor seqüência de serviço dos vinhos para que não se ofuscassem as qualidades de nenhuma safra. Do mais jovem para o mais velho ou ao contrário? Os mais antigos no inicio por serem mais delicados ou ao final por serem mais complexos? Ordem cronológica ou “descronológica”? Após idas e vindas de opiniões, assim foi:

Vallontano Cabernet Sauvignon 2000: parecíamos estar diante de um Bordeaux. Um vinho complexo e elegante, com notas de figos secos, caramelo e um toque de especiarias. Na boca sedoso, de taninos finos e muito boa acidez. Persistência looooonga.

Vallontano Cabernet Sauvignon 2002: o mais cálido de todos, precisou ser resfriado antes de servir. Me pareceu o mais evoluído também, com notas a couro e especiarias. Na boca, a acidez marcante, talvez a maior de todos os provados, tornava-o um vinho suculento. Gostei muito.

Vallontano Cabernet Sauvignon 2004: com aromas tímidos em princípio, precisou ser decantado para se soltar e expressar notas minerais e de especiarias bem evidentes, como noz moscada e pimenta. Na boca os taninos ainda estavam firmes, demonstrando que este vinho ainda tem alguns anos pela frente.

Vallontano Cabernet Sauvignon 2005: a partir daqui senti um salto de evolução, pecebi um vinho muito mais jovem que os demais, com aromas atraentes de goiaba, tabaco, pimenta. Na boca volumoso, com notas frutadas e tostadas e ótima persistência. Foi o favorito da maioria dos degustadores.

Vallontano Cabernet Sauvignon 2007: o mais jovem e descomplicado de todos os vinhos provados. O único que não teve passo por madeira. Segundo Zanini, esta safra não conferiu estrutura suficiente para o vinho suportar o estágio em carvalho sem que perdesse toda a fruta. Ainda sim, um vinho muito bem feito, que com seus 5 anos de idade está “inteirão”.

Foi interessante perceber o fio condutor que une estes vinhos. Apesar de diferentes, em virtude da evolução e do ano em que foram feitos, apresentam muita coerência e um estilo que remete ao vinho francês. Esta foi uma degustação que fez a muitos lembrarem de grandes vinhos franceses, ou como disse um dos degustadores, “os vinhos da Valllontado seriam talvez os mais Bordeaux entre todos os brasileiros”. O melhor de tudo é saber que não precisa gastar muito para provar esses ricos caldos: a safra 2005, disponível no mercado custa R$53,50 na Mistral.

Sala antes da degustação, vulto marrom a esquerda…

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