Vinhos Brasileiros com acento Português

Miguel Ângelo Vicente de Almeida, enólogo do Quinta do Seival Castas Portuguesas, vinho da Campanha Gaúcha servido nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, conta sobre o projeto de elaborar vinhos tipicamente portugueses no Brasil.

Nascido no Dão e criado no Douro, Miguel se formou em Enologia na Universidade Técnica de Lisboa e adquiriu experiência em diversas regiões de sua terra natal, como Alentejo e Douro, antes vir ao Brasil. Após duas safras trabalhando para a Miolo no Vale dos Vinhedos, Miguel assumiu em 2007 a autoria dos vinhos premium desta vinícola, denominados Quinta do Seival.

Localizados no extremo sul brasileiro, os vinhedos do “Seival State”, parecem ser um novo berço para as castas oriundas da Península Ibérica. Miguel nos explica um pouco mais…

Por que o terroir escolhido para os vinhos Quinta do Seival foi a Campanha Gaúcha?

Miguel: A Campanha Gaúcha surge como uma necessidade de diversificação, procura de outra aptidão natural. A Serra Gaúcha, a região vitivinícola brasileira onde tradicionalmente se produziam todos os tipos de vinhos; hoje sabemos que os espumantes são a sua melhor performance, com constância de colheitas de qualidade. Na jovem Campanha Gaúcha a capacidade original é diversificada e muito favorável, frutos de clima frio e chuvoso no Inverno, quente e seco no Verão e solos areno-argilosos, pobres, bem drenados. Na Campanha Gaúcha conseguimos ser constantes, competitivos e até excepcionais.

Como você percebeu a adaptação das uvas portuguesas a esta região? Porque a escolha destas castas?

Miguel: As castas portuguesas são o resultado de uma antiga parceria da Miolo com uma vinícola portuguesa. O Seival para a Miolo sempre foi o projeto de vinhos mais inovador, numa nova e tão versátil região quisemos explorar a possibilidade de novos vinhos, por isso, plantamos 25 castas diferentes, 15 com área produtiva significativa. De 8 castas portuguesas ainda existentes na propriedade, apenas 3 delas mostraram adaptação e revelaram tipicidade: Tempranillo (ou Tinta Roriz), Touriga Nacional e Alvarinho. As 2 tintas são muito aneiras, isto é, apenas quando o conjunto de condições climáticas é muito favorável no ano é que conseguimos obter o seu melhor potencial de intensidade e tipicidade. A Touriga é muito sensível a anos de umidade no Verão, já a Tempranillo a anos de umidade elevada no período de brotação e floração. A Alvarinho é o nosso tesouro, foi um feliz achado. A Alvarinho tem um comportamento vegetativo muito diferente daquele que ela possui na Região dos Vinhos Verdes (ao norte de Portugal); na Campanha ela é uma variedade muito resistente em todas as fases do ciclo, tem baixa produção natural, é de maturação tardia e os seus mostos são sempre equilibrados, com elevada acidez e moderada concentração de açúcares.

Como você percebe a aceitação do público brasileiro e estrangeiro aos seus vinhos?
Miguel: Por incrível que possa parecer, a aceitação ou o reconhecimento é muito maior por parte do público estrangeiro. O Seival é o projeto de vinho brasileiro que à 3 anos consecutivos mais exporta, em volume engarrafado e em valor. O vinho tinto vendido nos estádios dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 era nosso. Mas óbvio que o futuro do vinho brasileiro está no seu próprio país, somente com divulgação e conhecimento conseguiremos quebrar paradigmas e conceitos preconcebidos. Eu, como português, vejo que por aqui falta tornar o consumo de vinho cultural e plural. Vinho não tem mistério, não tem pedantismo, vinho é comida.
Qual é sua região de Portugal favorita? E estilo de vinho português preferido?

Miguel: Nasci no Dão e com três anos os meus pais foram viver no Douro. Os meus vinhos portugueses variam entre estas duas regiões: a potência e a extração do Douro Superior e o frescor e a elegância do Dão. Privilegio perfumes limpos e francos e acidezes refrescantes, assim nos brancos como nos tintos. Os solos graníticos do Dão favorecem estas características que muito me agradam.

Como você avalia o panorama da vitivinicultura brasileira atualmente? Que regiões e castas considera promissora?

Miguel: O vinho brasileiro está a viver um momento de mudança. Ha uma década atrás começou a reconversão das vinhas (outro modo de condução, maior adensamento, outras castas) e a descoberta de novas regiões vitícolas (Campanha, Campos de Cima da Serra, Serra do Sudeste, terras altas de Santa Catarina, terras áridas do Nordeste). Estes vinhos estão agora a chegar ao consumidor. Acredito desmesuradamente na região da Campanha Gaúcha. O seu potencial é enorme e tudo começou agora… Sobre castas promissoras, ainda é cedo, mas existem já algumas candidatas.

Qual o último vinho que você provou e como ele estava?

Miguel: RAR Collezione Merlot 2009, da região de Campos de Cima da Serra. O clima frio de um planalto a 1000 metros de altitude criou um vinho de complexidade aromática intensa, com acidez refrescante e tanino polimerizado, macio. Bela longevidade. 

Os Caldos “Luso-Brasileiros”:

Quinta do Seival Alvarinho 2011: produção limitadíssima deste exitoso vinho, feito a partir de apenas  1 hectare de vinhedo. A fermentação foi feita 100% em barris de carvalho francês, onde o vinho permaneceu amadurecendo por dez meses em contato com as suas borras antes de ser filtrado e engarrafado. Exuberância aromática e explosão de sabores no paladar. Imperdível.

Quinta do Seival Castas Portuguesas 2008: tinto de corte de Touriga Nacional e Tinta Roriz, de vinhedos com rendimento controlado, com colheita manual, macerações longas para boa extração de cor, aromas e taninos. Amadurecido durante 12 meses em barricas novas de carvalhos francês. Vinho elegante, suculento, redondo. Ótima relação custo-benefício. 

 

 

Entrevista publicada originalmente na Revista Vinícola. (ed. ago/set 2012)

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