Com que taça eu vou…

 Quem já passou pela situação de abrir um vinho ou espumante para comemorar a mudança à nova casa e brindou com copos de plástico por não saber em qual caixa foram guardadas as taças? Ou na casa alugada de veraneio, na falta de taças, tomaram aquele branco refrescante – depois de um banho de mar – em copo de… requeijão?

Se você já viveu alguma destas experiências (ou ambas) e ainda sim acha que o vinho estava delicioso, meus parabéns! Você consegue desfrutar de um vinho em momentos felizes sem frescuras ou mau humor por não estar tomando a bebida no copo certo.

Mas será mesmo que tomar o vinho na taça mais adequada faz a bebida descer mais gostosa? A resposta é sim, por diversas razões.

A primeira delas é a funcionalidade. Afinal, inventamos utensílios de cozinha com fins específicos – colher de sopa, colher de café, faca de corte de carne – cujo tamanho e a forma buscam facilitar as nossas vidas na degustação de um alimento ou bebida.

Com as taças a lógica é a mesma. A começar pela forma.

Taças de vinhos foram concebidas com haste não apenas para ficarem mais altas e bonitas mas como eixo/ponto de sustentação. Ou seja, seguramos a taça pela haste – a maior parte do tempo – para não esquentar o vinho com o calor das mãos.

O tamanho do bojo – parte superior que armazena a bebida – também é pensando em função do tipo de vinho. Taças com bojo menor, comportam menos vinho e portanto são destinadas a vinhos brancos e rosados, que precisam estar bem frescos. Não adianta encher e deixar o vinho esquentando na taça. Melhor deixa-lo fresquinho na garrafa em um balde de gelo ou geladeira e ir servindo aos poucos.

No caso dos espumantes, o formato longo e estreito do bojo da taça, permite preservar por mais tempo o gás carbônico – primordial neste tipo de vinho. Alem disso, nos permite admirar o famoso “perlage” – aquela sedutora seqüência de pequenas bolhinhas que percorre linearrmente a bebida de baixo para cima.

As antigas taças de espumante, de bojo baixo e boca bem aberta – cujo formato, reza a lenda, foi moldado nos seios de Maria Antonieta – são pouco práticas. Além da evasão mais rápida das bolhas, as chances de se derrubar a bebida são maiores, ainda mais depois de algumas doses…

A maioria dos vinhos tintos pede taças com bojos amplos, para que o vinho tenha espaço para respirar e liberar seu leque de aromas, que pode ir modificando a medida que damos à bebida seu devido tempo, e agitamos a taça de vez em quando. Mas uma vez, jamais se deve encher a taça! Um terço da sua capacidade é o limite. Ninguém quer manchar a camisa ou vestido claro com vinho ao tentar agitá-lo.

O material utilizado na confecção também influencia na percepção. Quanto mais leve e fina, for a taça, mais “atenção táctil” damos a bebida – e não ao recipiente. Plástico, acrílico, nem pensar, já que contaminam com aromas que não são próprios do vinho. Dê preferência sempre a vidro, o mais fino possível. E se o orçamento permite, aposte nas taças de cristal. Fabricantes chegam usar metais como chumbo para dar mais transparência, elasticidade e resistência ao vidro na confecção da taça.

Entrando em aspectos mais específicos, muitas taças foram desenvolvidas com base em um estudo de percepção dos sabores e sensações em pontos específicos na boca. Quer dizer, sentimos mais o doce, o salgado, o ácido, o amargor e a adstringência em pontos específicos da língua. Certas taças são pensadas para que o vinho entre na boca na ponta ou no meio da língua e desta maneira percebemos duas bebidas diferentes. Interessante, não?

Segundo a característica que se queira realçar ou atenuar em certo tipo de vinho, existe uma taça para tal. Se o objetivo é destacar a acidez ou expressão aromática em um branco ou suavizar o tanino e álcool de um tinto a taça ideal pode ajudar bastante.

No caso da empresa de cristaleria austríaca Riedel, foram consultados enólogos especialistas na vinificação de Malbecs, Bordeauxs, Borgonhas, Cabernets e Chardonnays, que, após terem provado seus vinhos em diferentes taças, escolheram em quais delas seu vinho ficava melhor. Quem mais apto para dizer como desfrutar plenamente um vinho que aquele que o fez?

Mas passemos a entender melhor como tudo isso funciona. Vamos a alguns exemplos:

taça chard oak

TAÇA CHARDONNAY AMADEIRADO

Esta taça, com o bojo amplo e a boca bem aberta, tem espaço suficiente para metermos o nariz la dentro e sentirmos bem as nuances aromáticas do vinho, além de possuir espaço suficiente para oxigena-lo. Ao degustar-se, o vinho entra na boca na ponta da língua, e ao percorrer as laterais desde o início ressalta a acidez de um vinho. Bom para o chardonnay que precisa de acidez para compensar a doçura transmitida pelo carvalho

 taça pinotTAÇA PINOT NOIR/BORGONHA

Corpo com o bojo amplo, que se estreita e logo se curva para fora na extremidade. Este charmoso formato de taça, permite oxigenar bem o vinho e parece ter um efeito mágico que realça e concentra os aromas, sendo, na minha opinião, a taça que melhor expressa a riqueza de perfumes da grande maioria dos tintos, sejam eles Pinots ou não. A curvatura final faz com que a bebida caia no início da língua realçando a frutuosidade do vinhos e a acidez, características buscadas num bom Pinot.

taça hermitageTAÇA HERMITAGE

Um dos formatos mais úteis e versáteis, sendo usado em muito vinhos do novo mundo feitos a base de Syrah, Malbec e Carmenére, que costumam ser mais alcoólicos ou tânicos. Com este formato de taça, o vinho entra na boca já na metade da língua, atenuando a sensação de doçura – que aumenta em vinhos alcoólicos – e fazendo com que o vinho se perceba menos tânico.

taça fluteTAÇA FLUT

De corpo estreito, possibilita que se sirva menos e a bebida não esquente, concentra os aromas muitas vezes sutis dos espumantes e ajuda a preservar – e contemplar – o gás carbônico que corre ao longo da taça.

artigo publicado na Revista Vinícola, ed. 10, dez 12/jan 13.

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