Quem decanta seus males espanta

Decantar por definição consiste em deixar repousar um líquido turvo para que seus resíduos sólidos se depositem no fundo. No caso dos vinhos, este processo só se aplica ipsis litteris aqueles rótulos de guarda, muito antigos, que com o passar do tempo sofrem um processo natural de sedimentação de suas partículas de cor e seus taninos. A bebida perde o aspecto límpido e brilhante o qual estamos acostumados. Para que estes sedimentos não prejudiquem a degustação transfere-se o caldo a um decanter com muito cuidado para que o máximo de sedimentos permaneça na garrafa. Esta é uma tarefa minuciosa que exige treino e habilidade do sommelier.

Apesar do nome – Decanter – fazer alusão ao processo de decantação, na maioria das vezes o usaremos para aerar o vinho, tornando-o mais agradável para o consumo. No entanto, não basta apenas despejarmos o liquido da garrafa ao decanter para solucionarmos a questão da aeração de forma eficiente.

Fizemos uma experiência com um vinho, abrindo três garrafas ao mesmo tempo e servindo uma delas num belíssimo decanter ovarius (cujo formato lembra uma lâmpada do Aladim), a outra num destes antigos vasos de vidro de leiteiro enquanto o terceiro vinho permaneceu na garrafa. Deixamos os três vinhos quietos e após duas horas eles foram servidos a um grupo de degustadores que quase não notaram diferenças ente um vinho e outro.

Decanter Ovarius em processo de fabricação

Decanter Ovarius em processo de fabricação

Conclusão: para um trabalho de aeração mais eficiente é importante agitar o recipiente para que o vinho entre em contato com o oxigênio. Isso mesmo, agitar o decanter até que se formem bolhas na superfície do vinho, da mesma forma como agitamos a taça antes de degustar a bebida. Desta forma se dispersam rapidamente os aromas indesejados – como o enxofre do sulfito e a acidez volátil – e se abrem mais facilmente os aromas que enriquecem o vinho e tornam a degustação mais prazerosa.

Que Decanter uso?

Hoje em dia, existem uma série de formatos de decanters diferentes. Dos mais simples e econômicos, a partir de 50 reais, aos mais sofisticados feitos em cristal em formatos tão interessantes que podem até ser usados como objeto de decoração. A Riedel lançou uma série exclusiva de decanters em forma de serpentes, elaborados artesanalmente, onde o vinho passeia pelo recipiente de forma que a oxigenação é eficiente. O preço, bastante exclusivo , gira em torno de 1700 reais. Ou seja, opções existem para todos os bolsos. O mais importante na escolha de um decanter é que ele seja de fácil manuseio e higienização. Alguns acessórios foram desenvolvidos para facilitar a limpeza, que deve ser feita de preferencia com água morna e, se necessário, um pouco de sabão neutro. Não mais que isso.

Decantadores Riedel "Cisne" e "Serpente"

Decantadores Riedel “Cisne” e “Serpente”

Que vinhos devo passar ao decanter?

Essencialmente os vinhos tintos, sobretudo aqueles bem concentrados, amadeirados, que estiveram guardados um bom tempo na garrafa e precisam de aeração para suavizarem e desenvolver a plenitude dos aromas. Vinhos mais alcoólicos e ricos em taninos também se favorecem com um passeio pelo decantador.

E na falta de um decanter?

Como nem sempre dispomos deste objeto, ou simplesmente não nos sentimos a vontade em usá-lo, foram desenvolvidos uma série de inventos que visam simular a oxigenação de maneira mais prática e rápida.

Como sommelier profissional, gosto da ritualização e do charme de se servir os vinhos no decanter. Até um tempo atrás ainda torcia o nariz para qualquer tipo de acessório julgando serem mais um destes produtos de TVShops que prometem mundo e fundos e em nosso cotidiano nunca funcionam tão bem como demonstrado na TV. Até o dia que ganhei um “corta-gotas-aerador” Le Creuset de um amigo e descobri que de fato essa peça funciona na hora do aperto. Desde então deixei de ser tão ortodoxo e passei a provar uma série de aeradores – entre outros inventos – e para minha surpresa, alguns funcionam muito bem. Os de formato ovais, como os da Vinturi e da Biovin dão conta do recado, além de fazer um barulhinho engraçado quando o liquido passa pelo aparato. O custo, a partir de 150 reais.

Aerador com torre Vinturi

Aerador com torre Vinturi

Em último caso, se não há pressa, basta servir o vinho em uma taça grande, bem bojuda e agitá-lo diversas vezes. Ir provando aos poucos e ver como o vinho muda e evolui na taça. Vinhos antigos e delicados como alguns Borgonhas são apreciados assim. Dada a sutileza dos aromas, muitos se perderiam ao passar a outro recipiente. Afinal, vinho tomado sem pressa, relaxado, é sempre mais gostoso.

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