Espumante? Sem açúcar, por favor!

Quando Madame Louise Pommery, há um século e meio atrás insistiu em lançar o primeiro Champagne seco da história, as opiniões eram controversas. Até 1860 todo espumante era tradicionalmente doce. Adicionavam-se generosas doses de açúcar para disfarçar a acidez marcante ou algum possível defeito que a bebida pudesse apresentar na época. Ainda que especialistas não apostassem no êxito deste estilo de vinho, ele acabou se popularizando a atualmente o estilo Brut respondem por cerca de 90% de todo espumante produzido na região, segundo dados do comitê vitícola de Champagne.

A bebida tornou-se tão popular que passou a ser reproduzida mundo a fora.

E o Brasil, para nossa sorte, tem vocação para produção de espumantes. Porém eles são tradicionalmente mais adocicados que seus similares produzidos em outros países para adaptar-se ao paladar brasileiro, como se costuma dizer.

Mas como o mercado dos vinhos se reinventa periodicamente, corajosos e criativos produtores tem comercializado seus espumantes naturalmente secos. Alguns deles até mesmo em pleno processo de maturação. Com as leveduras ainda dentro da garrafa, como em uma cerveja de trigo.

A qualidade dos vinhos-base de espumante brasileiros tem sido tão boa que terminada a refermentação e maturação da bebida, etapas tradicionais do processo champenoise, ao invés de se mascarar com licor de dosagem (ou expedição) adocicado, produtores optaram comercializar seus produtos assim, naturalmente secos e saborosos. Um privilégio para quem bebe.

A analogia pode parece tola, mas faz sentido: se hoje se fala em vinhos tintos sem doses exageradas de carvalho para não mascarar a qualidade da uva e do terroir, porque não valorizar a qualidade e a expressão pura da chardonnay dos nossos espumantes somado a complexidade natural adquirida com o tempo de maturação? Afinal, açúcar demais acaba homogeneizando os produtos.

A duas últimas edições do respeitado guia de vinhos sul-americanos, o Descorchados, passou a incluir os espumantes brasileiros nas suas avaliações. E na edição de 2016 a lista dos melhores espumantes do ano é dominada por espumantes naturais, ou “Nature”, como são tecnicamente classificados. A seguir, alguns espumantes deste estilo imperdíveis:

 

pizzato vertigo

PIZZATO – VERTIGO NATURE 2013, Vale dos Vinhedos. 85% Chardonnay, 15% Pinot Noir. Tempo de maturação mínimo de 30 meses. Comercializado com as borras, ou “sur lattes”, para que o consumidor continue amadurecendo o espumante em sua casa. Eleito o melhor espumante do ano pelo Descorchados 2016 e pelo guia Adega 2015/16.

GEISSE CAVE GEISSE TERROIR NATURE 2011, Pinto Bandeira. 50% Chardonnay, 50% Pinot Noir. 42 meses de maturação. Produtor consagrado de Pinto Bandeira, cujos espumantes já foram elogiados pela crítica inglesa e Master of Wine Jancis Robinson, colunista do Financial Times.

HERMANN LÍRICA CRUA NV Pinheiro Machado. 80% Chardonnay, 10% Gouveio, 10% Pinot Noir. O espumante é comercializado sem dégorgment com a própria tampa corona colocada para a refermentação. Sem dosagem, sem filtração. Uma experiência única para o consumidor.

Lirica crua

CASA VALDUGA GRAN RESERVA NATURE 60 MESES 2009 Vale dos Vinhedos. 80% Chardonnay, 20% Pinot Noir. Cinco ano de maturação com as borras resultam em um vinho rico e complexo. Uma pequena proporção do vinho base de chardonnay envelhecido em carvalho incrementando os sabores tostados.

 

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Curso de Sommelier Alta Gama – Nova turma

A Alta Gama lança uma nova turma do curso de Sommelier Profissional em Curitiba com início dia 19 de julho de 2016.

As aulas são semanais, sempre as terças feiras a noite das 19h15 as 21h45, em novo espaço mais amplo, moderno e confortável no Alto da XV: Espaço 810.

O curso, com 120 horas de duração, abrange temas relacionados a Viticultura e Enologia, passando por países produtores, estilos de vinhos, gastronomia (queijos, azeites, embutidos, etc.) e outras bebidas como café, cerveja e destilados.

Estão incluídas ainda visitas técnicas a vinhedos e vinícolas da Região Metropolitana de Curitiba.

Os professores têm formação acadêmica e especialização em diversas áreas do mundo do vinho e demais bebidas.

As turmas têm tamanho reduzido visando um melhor rendimento dos alunos durante a formação.

O programa completo do curso e a ficha de inscrição estão disponíveis para baixar no site da Alta Gama: http://altagama.net.br/cursos/

SommAG-jul16

 

A vocação vitícola dos arredores de Curitiba

É lindo testemunhar uma região valorizando e aprimorando a sua cultura gastronômica. Um banquete de projetos de cunho alimentar brotam no primeiro planalto paranaense: produtores de cerveja, queijos, embutidos, conservas, etc valorizando o que o clima e terroir tem para oferecer. Expresso na diversidade de paisagens que contemplam desde a Mata Atlântica a beira da Serra do Mar até as suaves colinas tomadas de Araucárias próximas aos campos gerais.

Hoje podemos preparar o menu completo de um jantar com alimentos e bebidas produzidos em Curitiba e seu entorno. E acompanhar cada passo da refeição com um vinho diferente, finalizando com um leque de opções de espumantes para o brinde.

Bebidas com qualidade impensada há dez anos atrás, quando começavam a engatinhar os primeiros projetos dedicados a produção de vinhos finos na região metropolitana de Curitiba.

Até então, a maioria do vinho produzido na região era o popular vinho colonial, feito a partir de uvas de mesa. E as pouquíssimas vinícolas que se dedicavam a elaboração de vinhos finos o faziam com uvas dos estados vizinhos da região Sul do Brasil.

De 2006 para cá produtores começaram a plantar uvas viníferas num microclima considerado tão desafiador, para não dizer difícil, para o cultivo de uvas viníferas. O excesso de humidade e chuva somado aos frequentes dias nublados pode não ser considerado o ideal para viticultura.

De fato Curitiba não tem, e está longe de ter, um clima seco e ensolarado que as viníferas tanto gostam, como em Mendoza e no Vale do Maipo. Mas isso não significa que o cultivo de uvas europeias na região seja impossível.

Apesar dos projetos serem todos muito novos, os resultados preliminares são surpreendentes. Vinhos com qualidade, estilo definido e potencial de guarda.

Se a primeira incerteza na fundação deste projetos foi se a região teria condições de nos brindar uvas sadias e maduras – o que se comprovou – a segunda era se o vinho feito a partir delas aguentaria o passo do tempo. E para nosso deleite eles têm envelhecido bem. Vinhos com cinco, seis anos de idade estão em plena qualidade e ainda vislumbram mais tempo de vida na garrafa. Outro sinal muito positivo.

Não se pode ser conclusivo ainda sobre as melhores uvas e terrenos da região, mais com base em alguns exemplos bem sucedidos, já podemos fazer um esboço do panorama atual dos vinhos finos dos arredores da capital paranaense. E ele é muito animador:

AraucariaVinícola Araucária – iniciado em 2007, a vinícola conta com 5 hectares de vinhedos plantados a cerca de 980 metros de altitude em São José dos Pinhais, próximos a Serra do Mar. A Chardonnay, em franca expansão, predomina os vinhedos e é a uva base de dois espumantes feitos pelo método champenoise – brut e demi sec – e um vinho branco fresco bastante floral com ligeira nota de caramelo. Estes vinhos vem temperados com uma discreta proporção de Viognier e Pinot Noir. Além destas castas, a Cabernet Franc tem sido bastante produtiva na região e dá origem ao vinho tinto recém-lançado. Destaca-se pelo aroma, frescor e o toque picante típico da variedade. A coleção é completada por mais três tintos das uvas Cabernet Sauvignon e Merlot de produtor parceiro em Campo Largo. Os tintos da linha Angustifólia, cuja safra vigente é de 2010 impressionam pela vivacidade e fluidez no paladar, com toque de carvalho aparente, mas na medida. As produções são limitadas e tem o conceito de homenagear a cultura do estado em seus rótulos estampados por murais do artista plástico Poty Lazarotto e símbolos da natureza paranaense, como a árvore Araucária e ave que a semeia, a Gralha Azul.

LegadoVinícola Legado – localizado em Bateias, zona rural de Campo Largo, possui cerca de 10 hectares de vinhedos implantados em 2006 a 1040 metros de altitude nos pés da Serra de São Luiz do Purunã. São cinco variedades de uvas europeias, lideradas pela branca Viognier e a tinta Merlot. Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e a pouco conhecida variedade italiana Fiano, completam os vinhedos. A amplitude térmica durante a época de maturação tem sido um dos principais aliados da uva, produzindo frutos com bom equilíbrio entre açúcar e acidez. Além do curioso vinho branco de Fiano, com aromas que remetem a erva-mate, a Legado acaba de engarrafar um fresquíssimo Viognier, uva que se adaptou muito bem e é usada na base de um dos seus espumantes, com ótima acidez, cremosidade e um sabor que lembra a damasco. A Pinot Noir têm sido a grande surpresa e revela-se em um tinto bastante fresco, frutado e fácil de tomar. Completam a adega um espumante rosado de Merlot e um tinto jovem de Cabernet Sauvignon e Merlot. A vinícola está preparando um tinto estilo Amarone – onde as uvas são parcialmente desidratadas antes da fermentação – com envelhecimento em carvalho novo, sem previsão de lançamento.

A história do vinho pelos seus recipientes

Na próxima semana realizarei um curso de 3 dias que reflete o resultado de duas pesquisas que realizei. A primeira delas em 2010, em Mendoza, onde avaliei os impactos sensoriais do uso carvalho nos vinhos durante a vinificação ou amadurecimento. Essa pesquisa foi realizada em um momento onde o estágio em madeira parecia ser o principal atributo enaltecedor das qualidades de um vinho.toneleria001

Passados cinco anos, o uso exaustivo e intenso do carvalho parece ter perdido um pouco a força e as qualidades da uva e do terroir ganham mais importância. Junto a isso, produtores buscam produzir vinhos mais autênticos, que fujam do lugar comum. Essa diferenciação passa pelo resgate de técnicas e recipientes ancestrais de vinificação, com destaque para o uso das ânforas de argila e os novíssimos tanques ovais de concreto. Este tornou-se então o tema da segunda pesquisa, realizada em 2015, como trabalho de conclusão da minha pós-graduação.

Estes três recipientes ANFORA DE ARGILA, BARRIS DE MADEIRA e OVOS DE CONCRETO constituem o tema que norteia o curso. Cada um deles teve – e ainda tem – sua relevância histórica e podem ser demarcadores no estilo de muitos vinhos.

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Cada aula será dedicada a um recipiente específico. Além de situarmos o recipiente no seu momento histórico, entenderemos o seu processo de fabricação e avaliaremos, através de degustações, os impactos sensoriais na bebida final.

Como cada recipiente está diretamente atrelado a uma técnica de vinificação ou cultivo específicos, serão pincelados também temas como viticultura biodinâmica, “vinhos laranjas”, cofermentações e macerações carbônicas. Vinhos que exemplifiquem o uso destas técnicas serão degustados ao longo destes três dias.

Um curso muito especial, montado com base em muito estudo e pesquisa que quero compartilhar com você!ovoconcreto

A HISTÓRIA DO VINHO PELOS SEUS RECIPIENTES

quando: 7, 8 e 9/dez/2015  |  19:30 as 21:45

onde: Espaço 810 – Itupava, 810. Alto da XV, Curitiba.

quanto: R$ 375

inscrições por email wgabardo@gmail.com

VIGNO – o novo grande vinho chileno

Chile, país tão estreito e cercado de barreiras naturais que preservam a biodiversidade de ameaças externas, orgulha-se de ser um dos únicos territórios do mundo livre de filoxera. Possui uma formação geológica única, lentamente esculpida pela ação dos fenômenos naturais que literalmente sacodem o país. Terremotos e erupções vulcânicas são responsáveis por um grande mosaico de solos – aluviais, coluviais, ricos em granito – onde as videiras se assentam e crescem com vigor.

As barreiras naturais – Atacama ao norte, Patagônia ao Sul, Pacífico a oeste e Andes a leste – protegem a biodiversidade chilena e ao mesmo tempo representam desafios. O território cultivável, que corresponde a cerca de um terço da extensão do país deve ser aproveitado ao máximo. Os vales nortenhos de Elqui e Limarí, cuja qualidade dos vinhos é notável, têm sofrido gradualmente com a escassez de água. Vizinhos ao Atacama, o deserto mais árido do mundo, ditos vales vêm sua capacidade produtiva limitada e comprometida pela falta d’água necessária para irrigação dos vinhedos.

Já no sul, o panorama é animador. Vales que tiveram importância histórica na época da colonização hispana, como Maule e Itata estão ganhando investimentos e valorização. A disponibilidade de água faz que com que em muitas áreas o manejo do vinhedo seja feito sem muita interferência humana. As plantas parecem gostar das condições das terras austrais e produzem por décadas, podendo alcançar facilmente um século de vida.

Os terremotos severos que sacodem o país esporadicamente parecem levantar os ânimos dos chilenos para replantar, reconstruir e seguir produzindo suas maiores riquezas, vindas da terra. Em 1939, um severo tremor com epicentro próximo a Cauquenes a 400km ao sul da Capital Santiago, no Vale do Maule, motivou a posterior plantação de vinhas de Carignan próximas a cordilheira da costa. Com o intuito de aportar mais cor, corpo e frescor ao tradicionais tintos pipeños feitos da uva criolla País, trazida e difundida pelos jesuítas três séculos antes como parte da sua missão colonizadora.

Maule VIGNO

Localização geográfica do secano interior do vale do Maule

Por razões desconhecidas estes vinhedos são esquecidos, talvez ofuscados pelo fama dos vales de Colchagua e Maipo e seus tintos intensos das populares e comerciais uvas Cabernet e Merlot que, em conjunto com a Carmenére, predominam nas garrafas dos tintos chilenos.

Mais de setenta ano mais tarde, em 2010, outro severo cataclismo assola terras Maulinas e parece chamar a atenção dos produtores que “redescobrem” na região vinhas já velhas de Carignan produzindo com vigor, sem condução, poda ou irrigação, plenamente adaptadas às condições do terroir que lhes foi regalada.

Surgi então uma associação de produtores que decidem dar a Carignan o seu merecido valor. E configura-se, curiosamente, a primeira denominação de origem chilena com imposições claras de cultivo, manejo e vinificação: a VIGNO – Vinhateiros de Carignan, que hoje conta com quinze produtores.

As regras para elaboração de um VIGNO são bem definidas. As uvas devem ser provenientes de vinhas da região demarcada conhecida como Secano Interior do Maule, sem irrigação. Os vinhos devem conter o mínimo de 65% de Carignan de vinhedos de trinta anos de idade ou mais, plantadas no antigo sistema de “cabeza” – um arbusto, apelidado de “vaso” pelos espanhóis e “gobelet” pelos franceses. Os demais 35% do corte fica a livre escolha da vinícola segundo o estilo de vinho que queira produzir. O mesmo vale para o tempo de maturação, de 24 meses, entre barrica e garrafa, ponderados segundo critério do produtor.

Carignan

Vinhas velhas de Carignan em sistema de vaso

A qualidade alcançada com os vinhos da VIGNO é surpreendente e tem ganho cada vez mais espaço no cenário do vinho chileno. Vinhos de cor e aromas frutados intensos, encorpados, suculentos e persistentes no paladar. Tintos para a mesa, com personalidade e potencial de guarda. Para fugir do lugar comum dos típicos cortes do Vale Central, da próxima vez prove um tinto de Carignan. Você se surpreenderá.

Sugestão de VIGNO excelente: VIGNO by Viña Roja (RE, Pablo Morandé)

vigno viñaroja

Aromas de grafite, groselha preta. No paladar sabor frutado intenso, encorpado, suculento, de ótima acidez. Um grande tinto para a comida.

Wine Day na Vinícola Araucária | 30 de maio

A vinícola Araucária, projeto pioneiro em cultivo de uvas viníferas na região metropolitana de Curitiba, promove o seu primeiro Wine Day em parceria com o sommelier Wagner Gabardo.

O evento é parte de um projeto enoeducativo que abordará diferentes visitas temáticas onde os participantes acompanham de perto o processo produtivos dos vinhos da vinícola.

Nesta edição, os participantes farão a vista aos vinhedos da propriedade, conhecerão as instalações da vinícola e farão um curso básico de degustação de vinhos seguido de um almoço típico com ingredientes cultivados no entorno dos vinhedos.

Ao final os participantes receberão um certificado e um vinho de brinde pela participação.

Ao longo do ano estão previstos Wine Days sobre Espumantes e o Método Champenoise, O Carvalho e seus impactos no vinho entre outros temas.

Wineday Araucaria

O que? Wine Day na Vinícola

Quando? Sábado, 30 de maio de 2015.

Como me inscrever? através dos fones (41) 3254 5259 ou (41) 9995 1212

Quanto? 180 reais por pessoa, inclui transporte ida e volta a vinícola saindo do centro de Curitiba, Visita a vinhedos e vinícola, Curso de degustação, Almoço, Certificado e Brinde.

Das alturas de Santa Catarina

Há pouco mais de dez anos se plantavam os primeiros vinhedos na região serrana de Santa Catarina, até então conhecida pelos seus invernos rigorosos e pela produção de maçãs.

A partir de estudos desenvolvidos pelo instituto de pesquisa do estado, a EPAGRI, constatou-se que existia o potencial para o cultivo de variedades viníferas destinadas a produção de vinhos finos.

De lá pra cá, muito se experimentou e, entre erros e acertos, diversas vinícolas foram surgindo e engarrafando seus vinhos para o mercado.

Uma associação foi fundada, a ACAVITIS, visando fortalecer a imagem da região como produtora de vinhos no cenário nacional e como destino de enoturismo.

O resultado pode ser visto taça e, atualmente, o Planalto Catarinense se firma como produtor de Sauvignon Blancs de qualidade, tintos, roses e espumantes feitos a partir do tradicional corte de cabernet/merlot e o plantio e vinificação de variedades de origem italiana, lideradas pelo êxito da sangiovese.

As seguir, as palavras dos precursores da região, que a viram crescer e que hoje colhem os frutos de um projeto certeiro :