VIGNO – o novo grande vinho chileno

Chile, país tão estreito e cercado de barreiras naturais que preservam a biodiversidade de ameaças externas, orgulha-se de ser um dos únicos territórios do mundo livre de filoxera. Possui uma formação geológica única, lentamente esculpida pela ação dos fenômenos naturais que literalmente sacodem o país. Terremotos e erupções vulcânicas são responsáveis por um grande mosaico de solos – aluviais, coluviais, ricos em granito – onde as videiras se assentam e crescem com vigor.

As barreiras naturais – Atacama ao norte, Patagônia ao Sul, Pacífico a oeste e Andes a leste – protegem a biodiversidade chilena e ao mesmo tempo representam desafios. O território cultivável, que corresponde a cerca de um terço da extensão do país deve ser aproveitado ao máximo. Os vales nortenhos de Elqui e Limarí, cuja qualidade dos vinhos é notável, têm sofrido gradualmente com a escassez de água. Vizinhos ao Atacama, o deserto mais árido do mundo, ditos vales vêm sua capacidade produtiva limitada e comprometida pela falta d’água necessária para irrigação dos vinhedos.

Já no sul, o panorama é animador. Vales que tiveram importância histórica na época da colonização hispana, como Maule e Itata estão ganhando investimentos e valorização. A disponibilidade de água faz que com que em muitas áreas o manejo do vinhedo seja feito sem muita interferência humana. As plantas parecem gostar das condições das terras austrais e produzem por décadas, podendo alcançar facilmente um século de vida.

Os terremotos severos que sacodem o país esporadicamente parecem levantar os ânimos dos chilenos para replantar, reconstruir e seguir produzindo suas maiores riquezas, vindas da terra. Em 1939, um severo tremor com epicentro próximo a Cauquenes a 400km ao sul da Capital Santiago, no Vale do Maule, motivou a posterior plantação de vinhas de Carignan próximas a cordilheira da costa. Com o intuito de aportar mais cor, corpo e frescor ao tradicionais tintos pipeños feitos da uva criolla País, trazida e difundida pelos jesuítas três séculos antes como parte da sua missão colonizadora.

Maule VIGNO

Localização geográfica do secano interior do vale do Maule

Por razões desconhecidas estes vinhedos são esquecidos, talvez ofuscados pelo fama dos vales de Colchagua e Maipo e seus tintos intensos das populares e comerciais uvas Cabernet e Merlot que, em conjunto com a Carmenére, predominam nas garrafas dos tintos chilenos.

Mais de setenta ano mais tarde, em 2010, outro severo cataclismo assola terras Maulinas e parece chamar a atenção dos produtores que “redescobrem” na região vinhas já velhas de Carignan produzindo com vigor, sem condução, poda ou irrigação, plenamente adaptadas às condições do terroir que lhes foi regalada.

Surgi então uma associação de produtores que decidem dar a Carignan o seu merecido valor. E configura-se, curiosamente, a primeira denominação de origem chilena com imposições claras de cultivo, manejo e vinificação: a VIGNO – Vinhateiros de Carignan, que hoje conta com quinze produtores.

As regras para elaboração de um VIGNO são bem definidas. As uvas devem ser provenientes de vinhas da região demarcada conhecida como Secano Interior do Maule, sem irrigação. Os vinhos devem conter o mínimo de 65% de Carignan de vinhedos de trinta anos de idade ou mais, plantadas no antigo sistema de “cabeza” – um arbusto, apelidado de “vaso” pelos espanhóis e “gobelet” pelos franceses. Os demais 35% do corte fica a livre escolha da vinícola segundo o estilo de vinho que queira produzir. O mesmo vale para o tempo de maturação, de 24 meses, entre barrica e garrafa, ponderados segundo critério do produtor.

Carignan

Vinhas velhas de Carignan em sistema de vaso

A qualidade alcançada com os vinhos da VIGNO é surpreendente e tem ganho cada vez mais espaço no cenário do vinho chileno. Vinhos de cor e aromas frutados intensos, encorpados, suculentos e persistentes no paladar. Tintos para a mesa, com personalidade e potencial de guarda. Para fugir do lugar comum dos típicos cortes do Vale Central, da próxima vez prove um tinto de Carignan. Você se surpreenderá.

Sugestão de VIGNO excelente: VIGNO by Viña Roja (RE, Pablo Morandé)

vigno viñaroja

Aromas de grafite, groselha preta. No paladar sabor frutado intenso, encorpado, suculento, de ótima acidez. Um grande tinto para a comida.

Reinventando Chile

Chile demonstra ser um dos países vitícolas que mais tem se reinventado nos últimos anos. As regiões vinícolas chilenas se expandiram além do tradicional vale Central e novos vales passam a ganhar protagonismo no cenário nacional. Da mesma forma, uvas pouquíssimo conhecidas ou valorizadas estão tornando-se estrelas do novo vinho chileno.

Há cerca de duas décadas, a vocação chilena para vinhos parecia estar resumida a tintos potentes de Cabernet Sauvignon, Merlot e Carmenere, com suas típicas notas herbáceas e mentoladas. Pouco tempo depois o Chile mostrou ao mundo que seus vales costeiros são o habitat ideal para variedades de uva de clima frio como Chardonnay, Pinot Noir e Sauvignon Blanc. Vinhos de belíssima acidez, exuberância aromática e mineralidade, tornando-se referencias mundiais.

Incansáveis, os chilenos souberam superar adversidades da natureza como terremotos que abalaram este estreito país de forma severa e rapidamente se reconstruíram. E se renovaram. A começar pelas fronteiras cultiváveis do país que cada vez mais se distanciam – sentidos norte e sul – da capital Santiago. Vales que até então eram focados na produção de uvas pisqueiras ou para vinhos de mesa hoje estão sendo revalorizados e cada vez mais almejados por produtores locais.

Ao norte, o vale do Limarí, com seus solos calcários e forte influência marítima, está originando brancos vibrantes que vão demonstrando complexidade a medida que envelhecem. Ao sul, o vale do Itata com cerca de dez mil hectares plantadas também passa por um processo de revalorização, produzindo surpreendentes vinhos feitos a partir da tinta Cinsault, pouco comercial, que ganha versões varietais em tintos e rosés, além de saborosos brancos secos de Moscatel de Alexandria.

GonzalesBastiasDestaque também para as videiras centenárias da uva País, chilena por adoção e pouquíssimo difundida internacionalmente. A uva deixou os bastidores e passou a ser a base de projetos de enólogos criativos que hoje produzem vinhos cultuados por sommeliers e enófilos. Tanto pela originalidade dos caldos quanto pela versatilidade no momento da harmonização. Vinhos fluídos, de bela acidez e curiosos aromas condimentados que lembram curry, como o do projeto boutique da Viña Artesanal Gonzales Bastias.

Outro exemplo bem sucedido deste trabalho de resgate são as vinhas velhas de Carignan, plantadas na metade do século passado no interior do extenso Vale do Maule. Através do projeto batizado “Vigno – Vignadores de Carignan”, doze vinícolas chilenas – entre elas De Martino, Undurraga e Morandé – buscam envidenciar esse patrimônio chileno até pouco ignorado. O resultado são tintos com ricos aromas a frutas silvestres, muito equilibrados e redondos no paladar. Vinhos suculentos, provam que vale a pena sim ousar, reinventar-se, buscar o novo mesmo que isso signifique resgatar tradições outrora esquecidas.

Vigno