Qualquer semelhança é mera coincidência

Dia daqueles que eu gosto, dia de feira de vinhos, dia de provar de tudo e cuspir, é claro, deixando sempre para bebericar aquilo que realmente vale a pena nos quinze minutos finais…

Entre taças que se quebram, camisas que se mancham e sorrisos com dentes bordôs, pode-se encontrar vinhos surpreendentes, vinhos novos e vinhos defeituosos com sabor a rolha. Expositores simpáticos e solícitos que fazem questão que você prove tudo e outros nem tanto, que servem míseras gotas na sua taça e mal olham na sua cara. E as vezes modelos esbeltas em/de saia justa por não ter a mínima idéia do que estam servindo. De tudo um pouco.

Entre idas e vindas, tive o prazer da fazer uma degustação muito interessante de diferentes tipos de Jerez. Pude esclarecer muitas dúvidas que tinha a respeito dessa bebida que tanto me fascina pelo trabalhoso processo de elaboração e ainda assim é vendida a preços super razoáveis. Degustei todas as variedades, como manda o roteiro:

Primeiro o Fino, com 6 anos de envelhecimento sobre uma curiosa capa de leveduras que dá a essa bebida um caráter único, processo que em espanhol se chama crianza biológica. Essa capa além de aportar aromas e corpo ao vinho, protege-o da oxidação.

Logo o Amontillado, que envelhece 2 ou 3 anos com a capa de leveduras. Essa capa em seguida é rompida, o que faz que o vinho passe a um processo de envelhecimento oxidativo.

Oloroso, que desde o início é destinado a envelhecer e oxidar, adquirindo cor mais escura que os demais e caráter muito mais intenso em nariz.

Até aqui todos são secos, feitos unicamente a partir da uva branca andaluz Palomino Fino.  A graduação alcoólica foi (gradualmente) aumentando de 15% para 19% até 20%  no caso do Oloroso. Ou seja, não é um vinho para tomar em grandes goles e não precisa beber a garrafa de uma só vez. Pode-se guardar e terminar-lo no dia seguinte. O teor alcoólico ajuda na conservação da bebida.

Aproveitei a oportunidade para perguntar ao produtor o que opinava sobre a minha sugestão de combinar o Oloroso com Feijoada (como sugeri aqui). Por sorte ele havia comido o famoso manjar no dia anterior e me comentou que seria muito provável que a combinação funcionasse. O defumado da carne de porco faria jogo com as notas defumadas da bebida. Além disso, o álcool seria uma mão-na-roda para limpar um pouco o paladar. Ufa, acertei!

Foi então a vez dos doces, começando pelo Cream, um vinho feito através do corte de um Oloroso com um vinho doce feito de outra uva, Pedro Ximenez. Me imaginei bebendo-o com alguma sobremesa com caramelo ou doce de leite.

Para terminar, provei um 100% Pedro Ximenez, uvas de colheita tardia, postas pra secar e com fermentação interrompida. Tudo isso para obter um vinho doce. E conseguiram. É uma sobremesa em si. E mais, tem cor, cheiro e sabor de balinha de banana de Antonina, IGUAL!

Mais info: http://www.fernandodecastilla.com/

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Vinho todos os dias! – Manifesto II

Quem disse que comida típica brasileira brasileira não combina com vinho? 

A próxima vez que você comer essas iguarias da nossa culinária, inove:

Muqueca Bahiana – delícia, cozida com leite de côco, coentro, um pouco de pimenta e dendê. Experimente com um Torrontes Argentino bem aromático para contrastar com o perfume exalado pelo cozido de peixe. Ou até mesmo com um Chardonnay que passou por barril de carvalho americano e ficou com cheiro e gostinho de côco bem saboroso.

Feijoada – (difícil!) contundente, exige soneca quase obrigatória depois de come-la. Sugiro acompanhá-la com um Jerez do tipo Oloroso seco. Se trata de um vinho branco fortificado, com álcool oscilando entre 18 e 20%, feito em Andaluzia. Intenso em aroma e sabor para fazer frente a um prato tão saboroso (e poderoso).

Aguardo opiniões dos que fizerem a experiência.

Contem-me seus pratos preferidos e discutimos com qual vinho podemos acompanhá-lo, afinal…

Tomar cerveja durante a refeição sacia a fome cedo demais e caipirinha embriaga as pessoas muito rápido!