Malbec, a Argentina de criação

Em 17 de abril de 1853, foi apresentado na assembléia legislativa de Mendoza, um projeto de lei que propunha  a criação da primeira Quinta Agronômica e Escola de Agricultura do país, por incentivo do atual governante Argentino, General Sarmiento. Pouco tempo depois a Quinta e a Escola foram fundadas e  a partir de então, caminhou todo o processo pelo qual  a Malbec se enraizaria definitivamente em Mendoza e ganharia força em seu novo terreno.

Tardou quase um século e meio para que os vinhos argentinos feitos de Malbec alcançassem condições de projetar-se aos mercados mundiais, fortalecidos pelo vigor do seu novo lar.  E que a uva se firmasse como uma referencia na elaboração de vinhos tintos ao redor do mundo.

E foi justamente 17 de abril a data escolhida pelas Wines of Argentina para promover o grandioso evento Malbec World Day que, em sua quinta edição em 2015, realizará ações em mais de cinquenta países, incluindo o Brasil.

De 1853 para cá a Argentina se modernizou. E a maneira de comunicar seus vinhos também. Todos os anos a promoção do dia mundial do Malbec está sempre associada a uma expressão artística contemporânea: musica eletrônica, pinturas em grafite no mobiliário urbano e vídeo. Nesta edição, homenageia o cinema através do lançamento de três curta metragens usando a cultura do vinho como pano de fundo.

A estratégia parece estar focada em cativar o jovem consumidor de vinhos,  fazendo-o tomar gosto pelos vinhos da cepa. E têm funcionado. Não é a toa que outros países pegaram carona com a fama da uva e passaram a lançar varietais de malbec mundo afora: é o caso dos Estados Unidos, Chile, Brasil e a própria França – país cuja região Cahors, vanguardista na cultivo de malbec, há séculos atrás teve seus vinhedos praticamente dizimados pela praga da filoxera.  Hoje, Cahors toma fôlego e volta a ser valorizada pelo público.

Mas é na Argentina onde a uva encontrou seu berço adotivo. No lado oriental da cordilheira dos Andes, o clima ensolarado propicia uvas com maturação plena que originam caldos de cor violeta intensa, aromas de fruta doce, suculentos e macios no paladar. Fáceis de tomar e gostar.  O segredo do seu êxito.

Tamanha aceitação fez com que a Malbec se expandisse além das fronteiras mendocinas, abrangendo as demais regiões vitícolas do país. De norte a sul, de 300 a 3 mil metros de altitude, com condições de clima e solo diferenciadas. Isso só fez bem, pois trouxe diversidade e atualmente podemos falar em estilos de Malbec Argentino.

Para os amantes de clássico Malbec, com aromas de ameixas pretas, suculento, frutado e com taninos bem redondos, a tradicional região de Lujan de Cuyo é escolha certa. O leque de opções é amplo: de versões mais ou menos encorpadas, com longo estágio ou sem nenhum carvalho. Ainda em Mendoza, a região que mais tem crescido nos últimos anos é o Vale do Uco, aos pés da cordilheira do Andes. As maiores altitudes e amplitude térmica da região originam vinhos mais florais no aroma, com maior acidez e taninos que garantem uma guarda mais longa aos vinhos. Especialmente os Malbecs dos distritos de Gualtallary e Altamira têm colecionado medalhas e pontuações em concursos e guias especializados.

Malbec cresce em solo argento de norte a sul, de 300 a 3 mil metros de altitude

Malbec cresce em solo argento de norte a sul, de 300 a 3 mil metros de altitude

Para os que preferem um vinho com menos corpo, mais acidez e um sedutor perfume de compota de frutas do bosque a sugestão é optar pelos Malbecs da fria e ventosa Patagônia, das províncias de Neuquén e rio Negro. Já os tintos mais carnudos e maduros, com graduação alcóolica pronunciada, são facilmente encontrados nas alturas de Salta, Catamarca e Tucumán.

Para todas as ocasiões, pratos e gostos pessoais, é possível encontrar um Malbec que mais agrade. A seguir, algumas sugestões:

Carmelo Patti Malbec, Lujan de Cuyo, Mendoza (Neve Wines) – vinícola boutique de enólogo homônimo, expert em produzir vinhos de guarda. Tinto complexo, sedoso no paladar, para decantar antes de consumir.  Acompanha bem cordeiro assado.

Zorzal Terroir Único Malbec, Vale do Uco, Mendoza (Grand Cru) – malbec aromático, com notas florais e pedregosas, fruto do solo rico em calcário da região de Gualtallary. Na boca encorpado, com taninos presentes, acidez marcante e longa persistência. Pede um bife de chorizo suculento.

A Lisa Malbec, Rio Negro, Patagônia (Mistral) – malbec de vinhedos biodinâmicos, com aromas peculiares a flores e ervas. Na boca tem textura sedosa, corpo médio, bela acidez. Para um risoto de cogumelos ou bacalhau confitado.

Colomé Estate Malbec, Vales Calchaquíes, Salta (Decanter) – vinícola também privilegia manejo biodinâmico dos vinhedos e produz um malbec onde se destacam as especiarias como pimenta, frutas maduras. Enche a boca, com taninos maduros, boa acidez e persistência. Perfeito com carnes ensopadas feitas ao estilo ragú.