Brasil, a rolha da vez?

O mundo parece estar reconhecendo o talento dos enólogos e a qualidade dos vinhos brasileiros. Na rápida passagem que fiz pela ultima Expovinis tive algumas conversas com enólogos de vinícolas brasileiras que me fizeram refletir. Testemunhei a alegria de Flavio Pizzato, que me contou a bela notícia de que três de seus vinhos entraram na carta da classe executiva de três companhias aéreas europeias: KLM, Britsh Airways e Lufhtansa. Merecido para um trabalho consistente que a Pizzato tem apresentado ao longo dos anos. Vinhos elegantes, verticais, equilibrados ou simplesmente “classudos” como prefiro chamar. Já tive o privilégio de conduzir uma degustação vertical de seus vinhos – cerca de 8 safras diferentes – e pude comprovar que o vinho brasileiro pode envelhecer bem.

Tenho notado a satisfação de Miguel Ângelo de Almeida, enólogo português que veio ao Brasil com a tarefa de vinificar as uvas da campanha gaúcha para a Miolo e vestiu a camisa do camisa do vinho brasileiro. Está tão feliz com o resultado do seu trabalho e com o terroir que lhe cruzou o caminho que não demonstra sentir falta de trabalhar em Portugal. Alias, graças a ele descobri que o Brasil tem condições sim de produzir vinhos de ótimo custo benefício e competitivos com produtos similares argentinos e chilenos. Basta perdermos o preconceito com o vinho nacional e derrubarmos estigmas de que para que nosso vinho seja bom, deve ser caro. Mentira. Tem apenas quinze reais no bolso e gostaria de tomar um bom vinho? Tome um Almadém, você não vai se arrepender.

Impossível não falar em Copa do Mundo a essa altura e não perceber o crescimento da Vínícola Lídio Carraro. Comandada pela jovem enóloga Monica Rossetti, produziu o vinho oficial do mundial de Futebol, o Faces, com a criativo corte de onze uvas aludindo ao numero de jogadores de uma equipe em campo, cada um com o seu papel. Há poucos anos atrás, salvos os entusiastas do vinho brasileiro e alguns profissionais da área, poucos conheciam essa pequena vinícola que fincou videiras em Encruzilhada do Sul e apostou na filosofia de produção de vinhos de qualidade sem nenhum uso do carvalho. E mais me alegra o fato de que por traz de um grande vinho, há uma grande mulher.

Mais recentemente, tive a grata notícia pelo site da Ibravin de que as exportações de vinho brasileiro quase quadruplicaram em comparação com o ano anterior. Além disso, o valor médio por garrafa aumentou, posicionando o Brasil no segmento de vinhos intermediário de ótimo custo-benefício, sem competir com produtos de entrada dos vizinhos do Mercosul. Atualmente podemos cruzar com rótulos “brazucas” nas prateleiras de lojas no Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda e Japão.

Apesar de não ter ganho o mundial de futebol, me alegra muito que o vinho brasileiro esteja marcando gols de placa mundo afora.

O lote de terra que veio fazer história

Uma das segundas feiras mais frias deste inverno curitibano foi aquecida por uma degustação muito boa promovida pela ABS-PR: a vertical do vinho ícone da Miolo, chamado Lote 43. No evento, conduzido por Adriano Miolo, provamos 6 safras diferentes. Desde a primeira, em 1999, onde o vinho surgiu ao acaso até a última, 2011, recém-terminada e em fase de lançamento no mercado.

O Lote 43 é feito apenas em safras consideradas excepcionais e se constitui de um corte de Merlot e Cabernet Sauvignon do lote histórico de vinhedos, propriedade da vinícola há mais de cem anos.

lote 43

Para os ávidos em provar a novíssima safra do Lote 43, lhes adianto: a pressa é inimiga da perfeição. Os vinhos brasileiros de gamas mais altas têm envelhecido muito bem e parecem estar no seu melhor momento a partir de uns 7 ou 8 anos – ao menos – da data da colheita. Cheguei a esta conclusão após ter provado recentemente outros belos vinhos da mesma região, como o Pizzato Concentus 2004 e o Vallontano Cabernet Sauvignon 2005.

Dentre as safras degustadas do ícone da Miolo, a 2004 e 2005 são as mais prontas para desfrutar, com vinhos complexos nos aromas e finos no paladar. As anteriores 1999 e 2002 apresentaram vinhos diferentes porém bem mais maduros, não no ápice de qualidade, mas, ainda assim, interessantes. Já as safras 2008 e 2011 entregam vinhos ainda muito jovens e duros, com muito potencial de envelhecimento positivo pela frente.

Produzir um Lote 43 é uma tarefa complexa. Como explicou Adriano Miolo, o vinho é desenhado no vinhedo. Os rendimentos de uva por planta são baixos para que se ganhe concentração nos frutos e a colheita é feita em diversas etapas respeitando a maturação ideal de cada planta. Não se colhe tudo de uma única vez. Desde a safra 2004, são feitas cerca de 3 colheitas em diferentes datas, seguidas de vinificações por separado. Só no final, após o envelhecimento em carvalho, os caldos são misturados para composição do vinho final. A proporção do corte era de partes de iguais de Cabernet e Merlot. A partir de 2011, por exigência da Denominação de Origem Vale dos Vinhedos, a Merlot passa a compor 60% do vinho.

Na sequencia, as impressões de cada safra:

1999 – neste ano, os vinhedos ainda eram plantados no sistema latado – onde as videiras crescem livremente formando um teto de parreirais – e o vinho saiu de um tanque cuja qualidade estava muito superior aos demais. Decidiu-se então, dar-lhe um trato a mais e engarrafá-lo como um vinho especial. Tons ocres na cor apontam evolução. Aromas a folhas secas, tabaco e azeitona. Na boca é fluído, boa acidez, com tanino bem sutil.

2002 – a partir daqui começaram a mudar o sistema de plantação para espaldeira – onde os vinhedos são plantados em fileiras ordenadas paralelamente. Vinho com aromas mais herbáceos, muita especiaria e notas de tomate maduro. Na boca acidez bem marcada torna o vinho super suculento e os taninos estão discretos mas presentes.

2004 – essa safra é um divisor de águas no estilo do Lote 43. Um vinho muito mais vivo na cor e nos aromas. Perfil bem frutado com notas lácteas como caramelo. Cai um pouco a acidez em relação aos anteriores mas cresce o corpo e os taninos estão redondos. Um vinho gostoso, equilibrado.

2005 – aroma sedutor de frutas negras maduras, ameixas pretas, toques de especiarias. Na boca tem textura aveludada, ótimo equilíbrio entre fruta e madeira, acidez na medida e uma persistência mais longa que os demais. O que mais gostei.

2008 – aromas frescos, lembram anis e menta mais frutas silvestres. Na boca encorpado, bastante frutados, taninos firmes, madeira se nota bastante. Esperaria mais uns dois anos para prová-lo novamente. Deve melhorar com o tempo.

2011 – frutado com aromas tostados bem evidentes. Vinho ainda muito jovem, com taninos duros e a madeira dominando na boca. Não está pronto para ser apreciado na sua plenitude. Daqui uns quatro anos a gente conversa.

Grandes vinhos! O Lote 43 vem mantendo uma coerência de estilo desde 2004. Esse lote ainda vai fazer história. 

miolo sede

Sobre a vinícola: http://www.miolo.com.br/