O antigo`a moda – tendências do vinho sul americano

A Viticultura de precisão foi uma grande revolução permitida pela ciência. O homem passou a controlar e irrigação, a  realizar adubação com fertilizantes industrializados e a usar equipamentos para tudo – até para medir o stress hídrico da planta. Este controle do homem sobre o vinhedo tornou-se possível graças aos avanços tecnológicos. Isso permitiu um padrão de qualidade mais uniforme das uvas, o que foi muito positivo para as vinícolas e para o mercado consumidor.

O mesmo aconteceu com a Enologia atual, em que todos os processos fermentativos são precisamente controlados. Dispõe-se de tanques de inox com controle de temperatura e micro-oxigenação induzida. Caso se queira dar aquele toque amadeirado que o consumidor tanto se acostumou, usam-se tanques revestidos com ripas de madeira.

Tanta tecnologia permitiu que as grandes como Concha y Toro e Gallo tenham condições de produzir milhões de litros de vinhos anuais corretos, sem defeitos. Porém, todos muito parecidos. Com vinhos tão similares, o consumidor passou a comprar as marcas de confiança e a buscar os melhores preços. Sem dar muita importância ou sequer saber sobre o processo produtivo da bebida ou as peculiaridades do vinhedo de origem. Parece que o “fazer-vinho” perdeu um pouco do seu romantismo. Virou mais uma mercadoria disputando espaço na prateleira.

Mas não se desiluda! Existe uma nova geração que adotou uma filosofia de cultivar videiras e elaborar vinhos que vai contra essa corrente “hipertecnológica”. Que busca resgatar métodos antigos de manejo de vinhedo e vinificação. para justamente apresentar algo novo. Um sabor diferente, de antigamente, quando não se dispunha de todos os recursos atuais.

O manejo do vinhedo parece ser o menos intervencionista possível. O homem deixa de exercer tanto protagonismo para que a natureza o faça. Regiões com solos pobres e clima seco, sempre foram ideais para isso. E Argentina e Chile têm terras como essas de sobra. O conceito de terroir parece ganhar cada vez mais força, em detrimento do nome da uva no rótulo. Não se quer mais vender apenas uma cepa, mas expressar uma região de origem. As particularidades do relevo, solo e clima que fazem aquele vinho único, difícil de se reproduzir em outros lados.

Projetos de pesquisa de terroir na Argentina e Chile estão ganhando força. O nome do vinhedo ou da região produtora recebem o mesmo ou até mais destaque que a(s) uva(s) usada(s) na sua composição. Belos e bem-sucedidos exemplos deste trabalho são a vinícola Undurraga (Chile) e a Manos Negras (Argentina e Chile). Ambas vinícolas se dedicam a pesquisar e produzir as uvas respeitando as terras onde elas melhor se adaptam. Desta forma, buscam elaborar vinhos que sejam o cartão de visitas daquela região, seja a Patagônia, o Vale do Uco, Casablanca ou Maipo.

Unduraga com a linha Terroir Hunters – idealizada pelo trio Pedro Parra, Rafael Urrejola e Roberto Pinto – busca provar que um Sauvignon Blanc ou Syrah chileno pode ser diverso segundo a origem e as características do vinhedo onde foi plantado. Lo Abarca, Leyda e Casablanca têm características únicas e podem produzir vinhos bem diferentes, ainda que da mesma uva. Além do trabalho com vinhedos antigos de uvas de pouco apelo comercial como a Carignan no vale do Maule que tem produzido resultados surpreendentes.

Uma uva, Três terroirs

Uma uva, Três terroirs

Já Manos Negras que, sob o comando de Alejandro Sejanovich, além de plantar a uva na zona onde ela produz melhores resultados, não distingue suas linhas de vinhos por mais ou menos tempo de repouso em carvalho. Nem sequer usa os jargões Reserva ou Gran Reserva para vender seus vinhos. A vinícola vai além e lança a linha de vinhos Soil Select, em que  a qualidade da bebida é determinada pela parcela de vinhedo com solos específicos ideias para a uva.

A enologia também tem transitado por métodos tradicionais. O mendocino Matías Michelini, da Passionate Wine, parece ter se cansado dos tanques de inox e passou a fermentar seus vinhos em tanques ovais de cimento. Matías também ousa ao produzir um vinho branco de cor laranja, ao fermentar as uvas com a casca e sem qualquer filtragem, batizado Torrontés Brutal.

Vinho laranja - "Torrontés Brutal"

Vinho laranja – “Torrontés Brutal”

A chilena De Martino, cujo enólogo é Marcelo Retamal,  depois de  vinificar em 347 vinhedos diferentes neste estreito e longo país, produziu um belíssimo e incomum tinto. Trata-se de um Cinsault, plantado no Vale do Itata, a 400 km ao sul de Santiago e bem próximo do Pacífico. A inovação não para por aí: o vinho é vinificado em ânforas de argila, com leveduras indígenas – próprias da uva – como se fazia séculos atrás. É um vinho sem filtrar, de um roxo mais opaco, com aromas florais e frutados delicados, fluído, fácil de tomar, nada alcoólico. Um vinho franco, um fermentado de uvas puro, sem manipulações ou ferramentas enológicas para torná-lo mais escuro, alcoólico, tânico, aromático, ou o que seja. Surpreendente.

Resgatando métodos ancestrais

Resgatando métodos ancestrais

Que essa geração de criativos viticultores e enólogos continuem nos surpreendendo, buscando no tradicional o novo. Buscando talvez um equilíbrio entre recursos tecnológicos e métodos ancestrais de trabalho. Elaborando vinhos que nos façam meditar. De aromas e sabores registrados para sempre em nossas memórias.

Anúncios

É dia de feira

Dia daqueles de que eu gosto, dia de feira de vinhos, de provar de tudo e cuspir, é claro, para não se embriagar, deixando sempre para bebericar aquilo que realmente vale a pena nos quinze minutos finais…

Entre taças que brindam, camisas que se mancham e sorrisos com dentes roxos, é possível encontrar vinhos surpreendentes, vinhos novos e `as vezes até algum vinho defeituoso com sabor a rolha. Prova-se um vinho daquela uva que você tinha lido uma vez em algum livro mas nunca tinha experimentado. Encontra-se o vinho daquela região que você sempre teve curiosidade de conhecer ou daquela outra de que você nunca tinha ouvido falar. Caminha-se alguns passos mais pelos corredores do pavilhão e a situação se repete…

Digo que nessas horas sofro de distúrbio de atenção, e todas as vezes que vou a esta feira pareço criança em loja de brinquedos `as vésperas do Natal. Durante três dias do ano, quatro horas por dia, em São Paulo, tenho a difícil tarefa de provar, provar e escolher o que provar frente a enorme quantidade de rótulos disponíveis.

São mais de 400 expositores  de todo o mundo: África do Sul, Chile. Argentina, França, Portugal, Brasil e muito outros, reunidos na EXPOVINIS, a maior feira de vinhos da América do Sul.  Este ano em sua 16ª edição, realizada entre 24 e 26 de abril, recebeu, segundo dados oficiais, cerca de 19.000 visitantes.

Numa feira grande como essa, o importante é ter foco e estabelecer uma mínima ordem do que se provar para não virar uma bagunça de sabores na sua boca. Por exemplo: começar com espumantes e vinhos brancos e logo passar aos tintos para finalmente terminar nos doces. Um vai e volta de vinhos muito diferentes atrapalha nossa percepção.

A parte enriquecedora é conhecer pequenos produtores apaixonados pelo vinho que lhe explicam com tanta clareza que lhe abrem a mente e lhe fazem aprender algo novo. Improvisar uma saudação ou tentar falar algo no idioma do produtor pode ser bom, as possibilidades de que ele lhe sirva aquela garrafa exclusiva que ele tem separada são maiores.

O interessante é sempre ir atrás de coisas novas, para estar a par do que se tem feito por aí. Algumas coisas que chamaram minha atenção:

  • Os perfumados e fresquíssimos Chenin e Sauvignon Blancs da África do Sul, dos produtores Boschendal e Belligham, o que demonstra que eles não vivem só  de pinotage.
  • A clássica mistura de Chardonnay e Pinot Noir, então conhecida como base de espumantes e champagnes pode ser provadas em versões de vinhos brancos e roses secos, como a da Bodega Marichal uruguaia.
  • Os tintos piemonteses da denominação de origem Roero, para aqueles que querem provar um Nebbiolo mais jovem, bom e barato, sem precisar gastar muito com um Barolo.
  • O aromático e untuoso Alvarinho brasileiro, lançamento da linha Quinta do Seival Castas Portuguesas, da Miolo.
  • Os delicados e cremosos espumantes roses feitos de Cabernet Sauvignon, plantada a 1200 metros de altitude da Serra Catarinense, dos produtores Suzin e Sanjo.
  • O saboroso Bonarda Emma da Família Zuccardi, tradicional vinícola argentina que aposta em outros varietais (não só Malbec) e os faz muito bem.
  • Os projetos de pesquisa de terroir como o Terroir Hunters da chilena Undurraga que lançou três Sauvigon Blancs de três regiões vizinhas porém distintas, buscando as sutilezas que distinguem zona.

Ficou com vontade? Ano que vem tem mais. A feira é realizada sempre na última semana de Abril, durante três dias, no Expocenter Norte, próximo ao terminal Tiete, na zona norte de São Paulo. As datas do próximo evento estão disponíveis no endereço abaixo. É possível se cadastrar e receber informações antecipadas sobre palestras e credenciamento: http://www.exponor.com.br/expovinis/

Texto adaptado do publicado originalmente na Revista Vinícola ed. jun/jul 2012.