O lote de terra que veio fazer história

Uma das segundas feiras mais frias deste inverno curitibano foi aquecida por uma degustação muito boa promovida pela ABS-PR: a vertical do vinho ícone da Miolo, chamado Lote 43. No evento, conduzido por Adriano Miolo, provamos 6 safras diferentes. Desde a primeira, em 1999, onde o vinho surgiu ao acaso até a última, 2011, recém-terminada e em fase de lançamento no mercado.

O Lote 43 é feito apenas em safras consideradas excepcionais e se constitui de um corte de Merlot e Cabernet Sauvignon do lote histórico de vinhedos, propriedade da vinícola há mais de cem anos.

lote 43

Para os ávidos em provar a novíssima safra do Lote 43, lhes adianto: a pressa é inimiga da perfeição. Os vinhos brasileiros de gamas mais altas têm envelhecido muito bem e parecem estar no seu melhor momento a partir de uns 7 ou 8 anos – ao menos – da data da colheita. Cheguei a esta conclusão após ter provado recentemente outros belos vinhos da mesma região, como o Pizzato Concentus 2004 e o Vallontano Cabernet Sauvignon 2005.

Dentre as safras degustadas do ícone da Miolo, a 2004 e 2005 são as mais prontas para desfrutar, com vinhos complexos nos aromas e finos no paladar. As anteriores 1999 e 2002 apresentaram vinhos diferentes porém bem mais maduros, não no ápice de qualidade, mas, ainda assim, interessantes. Já as safras 2008 e 2011 entregam vinhos ainda muito jovens e duros, com muito potencial de envelhecimento positivo pela frente.

Produzir um Lote 43 é uma tarefa complexa. Como explicou Adriano Miolo, o vinho é desenhado no vinhedo. Os rendimentos de uva por planta são baixos para que se ganhe concentração nos frutos e a colheita é feita em diversas etapas respeitando a maturação ideal de cada planta. Não se colhe tudo de uma única vez. Desde a safra 2004, são feitas cerca de 3 colheitas em diferentes datas, seguidas de vinificações por separado. Só no final, após o envelhecimento em carvalho, os caldos são misturados para composição do vinho final. A proporção do corte era de partes de iguais de Cabernet e Merlot. A partir de 2011, por exigência da Denominação de Origem Vale dos Vinhedos, a Merlot passa a compor 60% do vinho.

Na sequencia, as impressões de cada safra:

1999 – neste ano, os vinhedos ainda eram plantados no sistema latado – onde as videiras crescem livremente formando um teto de parreirais – e o vinho saiu de um tanque cuja qualidade estava muito superior aos demais. Decidiu-se então, dar-lhe um trato a mais e engarrafá-lo como um vinho especial. Tons ocres na cor apontam evolução. Aromas a folhas secas, tabaco e azeitona. Na boca é fluído, boa acidez, com tanino bem sutil.

2002 – a partir daqui começaram a mudar o sistema de plantação para espaldeira – onde os vinhedos são plantados em fileiras ordenadas paralelamente. Vinho com aromas mais herbáceos, muita especiaria e notas de tomate maduro. Na boca acidez bem marcada torna o vinho super suculento e os taninos estão discretos mas presentes.

2004 – essa safra é um divisor de águas no estilo do Lote 43. Um vinho muito mais vivo na cor e nos aromas. Perfil bem frutado com notas lácteas como caramelo. Cai um pouco a acidez em relação aos anteriores mas cresce o corpo e os taninos estão redondos. Um vinho gostoso, equilibrado.

2005 – aroma sedutor de frutas negras maduras, ameixas pretas, toques de especiarias. Na boca tem textura aveludada, ótimo equilíbrio entre fruta e madeira, acidez na medida e uma persistência mais longa que os demais. O que mais gostei.

2008 – aromas frescos, lembram anis e menta mais frutas silvestres. Na boca encorpado, bastante frutados, taninos firmes, madeira se nota bastante. Esperaria mais uns dois anos para prová-lo novamente. Deve melhorar com o tempo.

2011 – frutado com aromas tostados bem evidentes. Vinho ainda muito jovem, com taninos duros e a madeira dominando na boca. Não está pronto para ser apreciado na sua plenitude. Daqui uns quatro anos a gente conversa.

Grandes vinhos! O Lote 43 vem mantendo uma coerência de estilo desde 2004. Esse lote ainda vai fazer história. 

miolo sede

Sobre a vinícola: http://www.miolo.com.br/

South American Way

O brasileiro parece estar perdendo cada vez mais o preconceito com o produto nacional. No que diz respeito aos vinhos, os espumantes estão liderando esse movimento. O melhor disso tudo é que o espumoso que nos estamos tomando é de qualidade e tem bom preço. Cada vez mais as pessoas estão propensas optar pelo vinho com bolhas tupiniquim para o brinde na ocasião especial.

O espumante brasileiro não tem nada a perder na disputa com produtos similares importados. Há um bom tempo descobrimos que vale muito mais a pena comprar dois moscatéis frescos e gostosos a preço de um Asti italiano.

Inclusive o mercado estrangeiro já se deu conta disso. Nossos espumantes são frequentemente bem pontuados em concursos internacionais e estão caindo no gosto dos yankees. A vinícola Aurora está apostando no mercado norte americano com a sua linha de espumantes Carnaval Sparkling e o espumante premium 130 da Casa Valduga será em breve distribuído por uma das maiores empresas de comércio de bebidas dos Estados Unidos.

O interessante da produção de espumantes daqui – e dos vinhos como um todo – é a inovação e a experimentação. Poderia se dizer que desenvolvemos espumantes de todos os métodos – charmat, tradicional, asti – usando não apenas as uvas clássicas de Champagne como manda o roteiro, mas experimentado outras que eu ao menos não imaginaria na composição desta festiva bebida.

Não apenas de Chardonnay e Pinot Noir é feito um vinho com bolhas.

maestrale sanjoQuem diria que a Cabernet Sauvignon, conhecida por ser encorpada e tânica, daria origem a espumantes frescos e delicados?

Na Serra Catarinense, a rainha das uvas tintas parece ter encontrado seu lugar, servindo de base a espumantes brancos e rosados, em atuação solo ou misturada com Merlot e Chardonnay.

É o caso dos espumantes da vinícola Pericó que possui um amplo leque de opções, a maioria elaborada pelo método charmat, em versões brancas e rosadas, brut e demi sec feitas a base de cortes de Cabernet, Merlot e Chardonnay. Outros bons exemplos são a vinícola Suzin que produz um espumante rosé charmat com Cabernet Sauvingon que pode vir misturado com Merlot segundo a safra; e a Coopertiva Sanjo, que possui o Maestrale, um rosé feito 100% de Cabernet Sauvignon.

Villa Francioni, da mesma região, ousa ainda mais e faz quase um Chateneuf-du-pape em sua versão espumosa, dada a quantidade de uvas usadas no corte do seu blanc de noir, batizado JoaquimSyrah, Pinot Noir e Sangiovese com pequenas doses de Malbec e Petit Verdot. Acha pouco?

Descendo a serra e chegando ao Vale dos Vinhedos, já no Rio Grande do Sul, a Chandon do Brasil, a filial tropical do grupo Moet Hennessy, agrega Riesling Itálico `a mistura clássica de Pinot Noir e Chardonnay em vários de seus espumantes e aposta na aromáticas Malvasia e Moscatel para a elaboração do seu rose demi-sec Passion.

Outra vinícola da região que graças a qualidade do seus vinhos ganhou espaço em cartas de vinhos de prestigiosos restaurante ao redor do Brasil é a Cave Geisse. Comandada pelo enólogo chileno Mario Geisse, produz espumantes pelo método tradicional e não tem pressa em soltar as garrafas no mercado. Deixa seus vinhos amadurecendo nas cavas no mínimo por 18 meses.

Algumas vinícolas menores da região que produzem espumantes a um ótimo custo beneficio são a Pizzato que também trabalha com as variedades clássicas e produz duas linhas de espumantes, Fausto charmat e Pizzato champenoise; e a Vallontano que este ano lançou o LH Zanini, champenoise, de produção de apenas 2500 garrafas.

guatambuJá no extremo sul do Brasil, na Campanha Gaúcha, a vinícola Guatambu produz fresquíssimos espumantes a partir de cortes de Chardonnay e Sauvignon Blanc, com acidez e leveza que fazem uma garrafa terminar desapercebida.

A realidade brasileira é diversa, são vinícolas de vários portes, algumas produzem milhões de litros anuais, outras com capacidade muito mais modesta. Umas apostando nas variedades clássicas enquanto outras provam com uvas novas. A lista de vinícolas do sul do Brasil que produzem bons espumantes poderia se estender, mas preferimos deixar espaço para opiniões de especialistas no assunto. Pedimos que nos contassem quais seus espumantes prediletos:

Avelino Zanetti Filho (Enólogo e Professor do Centro Europeu):, Casa Valduga Maria Valduga, Estrelas do Brasil Brut, Valmarino & Churchil Extra Brut, Salton Gerações Nature, Maxino Boschi Speciale Extra Brut.

Fabio Marquart (Sommelier do Gardeno): Gran Legado Brut Champenoise, Guatambu Extra Brut, Dunamis Ar Brut, Cave Geisse Brut.

William Chipon (Proprietário do Empório 4 Estações): Suzin Brut Rose, Cave Pericó Champenoise, Adolfo Lona Nature, Cave Geisse Nature.

ValmarinoCh extra brut