A história do vinho pelos seus recipientes

Na próxima semana realizarei um curso de 3 dias que reflete o resultado de duas pesquisas que realizei. A primeira delas em 2010, em Mendoza, onde avaliei os impactos sensoriais do uso carvalho nos vinhos durante a vinificação ou amadurecimento. Essa pesquisa foi realizada em um momento onde o estágio em madeira parecia ser o principal atributo enaltecedor das qualidades de um vinho.toneleria001

Passados cinco anos, o uso exaustivo e intenso do carvalho parece ter perdido um pouco a força e as qualidades da uva e do terroir ganham mais importância. Junto a isso, produtores buscam produzir vinhos mais autênticos, que fujam do lugar comum. Essa diferenciação passa pelo resgate de técnicas e recipientes ancestrais de vinificação, com destaque para o uso das ânforas de argila e os novíssimos tanques ovais de concreto. Este tornou-se então o tema da segunda pesquisa, realizada em 2015, como trabalho de conclusão da minha pós-graduação.

Estes três recipientes ANFORA DE ARGILA, BARRIS DE MADEIRA e OVOS DE CONCRETO constituem o tema que norteia o curso. Cada um deles teve – e ainda tem – sua relevância histórica e podem ser demarcadores no estilo de muitos vinhos.

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Cada aula será dedicada a um recipiente específico. Além de situarmos o recipiente no seu momento histórico, entenderemos o seu processo de fabricação e avaliaremos, através de degustações, os impactos sensoriais na bebida final.

Como cada recipiente está diretamente atrelado a uma técnica de vinificação ou cultivo específicos, serão pincelados também temas como viticultura biodinâmica, “vinhos laranjas”, cofermentações e macerações carbônicas. Vinhos que exemplifiquem o uso destas técnicas serão degustados ao longo destes três dias.

Um curso muito especial, montado com base em muito estudo e pesquisa que quero compartilhar com você!ovoconcreto

A HISTÓRIA DO VINHO PELOS SEUS RECIPIENTES

quando: 7, 8 e 9/dez/2015  |  19:30 as 21:45

onde: Espaço 810 – Itupava, 810. Alto da XV, Curitiba.

quanto: R$ 375

inscrições por email wgabardo@gmail.com

O antigo`a moda – tendências do vinho sul americano

A Viticultura de precisão foi uma grande revolução permitida pela ciência. O homem passou a controlar e irrigação, a  realizar adubação com fertilizantes industrializados e a usar equipamentos para tudo – até para medir o stress hídrico da planta. Este controle do homem sobre o vinhedo tornou-se possível graças aos avanços tecnológicos. Isso permitiu um padrão de qualidade mais uniforme das uvas, o que foi muito positivo para as vinícolas e para o mercado consumidor.

O mesmo aconteceu com a Enologia atual, em que todos os processos fermentativos são precisamente controlados. Dispõe-se de tanques de inox com controle de temperatura e micro-oxigenação induzida. Caso se queira dar aquele toque amadeirado que o consumidor tanto se acostumou, usam-se tanques revestidos com ripas de madeira.

Tanta tecnologia permitiu que as grandes como Concha y Toro e Gallo tenham condições de produzir milhões de litros de vinhos anuais corretos, sem defeitos. Porém, todos muito parecidos. Com vinhos tão similares, o consumidor passou a comprar as marcas de confiança e a buscar os melhores preços. Sem dar muita importância ou sequer saber sobre o processo produtivo da bebida ou as peculiaridades do vinhedo de origem. Parece que o “fazer-vinho” perdeu um pouco do seu romantismo. Virou mais uma mercadoria disputando espaço na prateleira.

Mas não se desiluda! Existe uma nova geração que adotou uma filosofia de cultivar videiras e elaborar vinhos que vai contra essa corrente “hipertecnológica”. Que busca resgatar métodos antigos de manejo de vinhedo e vinificação. para justamente apresentar algo novo. Um sabor diferente, de antigamente, quando não se dispunha de todos os recursos atuais.

O manejo do vinhedo parece ser o menos intervencionista possível. O homem deixa de exercer tanto protagonismo para que a natureza o faça. Regiões com solos pobres e clima seco, sempre foram ideais para isso. E Argentina e Chile têm terras como essas de sobra. O conceito de terroir parece ganhar cada vez mais força, em detrimento do nome da uva no rótulo. Não se quer mais vender apenas uma cepa, mas expressar uma região de origem. As particularidades do relevo, solo e clima que fazem aquele vinho único, difícil de se reproduzir em outros lados.

Projetos de pesquisa de terroir na Argentina e Chile estão ganhando força. O nome do vinhedo ou da região produtora recebem o mesmo ou até mais destaque que a(s) uva(s) usada(s) na sua composição. Belos e bem-sucedidos exemplos deste trabalho são a vinícola Undurraga (Chile) e a Manos Negras (Argentina e Chile). Ambas vinícolas se dedicam a pesquisar e produzir as uvas respeitando as terras onde elas melhor se adaptam. Desta forma, buscam elaborar vinhos que sejam o cartão de visitas daquela região, seja a Patagônia, o Vale do Uco, Casablanca ou Maipo.

Unduraga com a linha Terroir Hunters – idealizada pelo trio Pedro Parra, Rafael Urrejola e Roberto Pinto – busca provar que um Sauvignon Blanc ou Syrah chileno pode ser diverso segundo a origem e as características do vinhedo onde foi plantado. Lo Abarca, Leyda e Casablanca têm características únicas e podem produzir vinhos bem diferentes, ainda que da mesma uva. Além do trabalho com vinhedos antigos de uvas de pouco apelo comercial como a Carignan no vale do Maule que tem produzido resultados surpreendentes.

Uma uva, Três terroirs

Uma uva, Três terroirs

Já Manos Negras que, sob o comando de Alejandro Sejanovich, além de plantar a uva na zona onde ela produz melhores resultados, não distingue suas linhas de vinhos por mais ou menos tempo de repouso em carvalho. Nem sequer usa os jargões Reserva ou Gran Reserva para vender seus vinhos. A vinícola vai além e lança a linha de vinhos Soil Select, em que  a qualidade da bebida é determinada pela parcela de vinhedo com solos específicos ideias para a uva.

A enologia também tem transitado por métodos tradicionais. O mendocino Matías Michelini, da Passionate Wine, parece ter se cansado dos tanques de inox e passou a fermentar seus vinhos em tanques ovais de cimento. Matías também ousa ao produzir um vinho branco de cor laranja, ao fermentar as uvas com a casca e sem qualquer filtragem, batizado Torrontés Brutal.

Vinho laranja - "Torrontés Brutal"

Vinho laranja – “Torrontés Brutal”

A chilena De Martino, cujo enólogo é Marcelo Retamal,  depois de  vinificar em 347 vinhedos diferentes neste estreito e longo país, produziu um belíssimo e incomum tinto. Trata-se de um Cinsault, plantado no Vale do Itata, a 400 km ao sul de Santiago e bem próximo do Pacífico. A inovação não para por aí: o vinho é vinificado em ânforas de argila, com leveduras indígenas – próprias da uva – como se fazia séculos atrás. É um vinho sem filtrar, de um roxo mais opaco, com aromas florais e frutados delicados, fluído, fácil de tomar, nada alcoólico. Um vinho franco, um fermentado de uvas puro, sem manipulações ou ferramentas enológicas para torná-lo mais escuro, alcoólico, tânico, aromático, ou o que seja. Surpreendente.

Resgatando métodos ancestrais

Resgatando métodos ancestrais

Que essa geração de criativos viticultores e enólogos continuem nos surpreendendo, buscando no tradicional o novo. Buscando talvez um equilíbrio entre recursos tecnológicos e métodos ancestrais de trabalho. Elaborando vinhos que nos façam meditar. De aromas e sabores registrados para sempre em nossas memórias.