Eslovênia – a nova pérola do mundo dos vinhos

A Eslovênia enquanto nação constituída tem uma história recente. Já foi parte do Império Austríaco, da República Socialista da Iugoslávia, até se tornar independente em 1991. Apesar disso, sua trajetória vitivinícola ultrapassa dois milênios de vida.

A vocação deste pequeno país, com paisagens verdejantes tomadas por florestas e montanhas, é sobretudo para a produção de uvas e vinhos brancos de destacado frescor e aroma.

Eslovênia possui cerca de 20 mil hectares de vinhedos plantados em duas regiões principais. Uma delas, Primorje, próxima ao mar adriático e da fronteira com o nordeste italiano e a outra no lado oriental junto a fronteira com Áustria, Hungria e Croácia.

Regiões vitícolas da Eslovênia

Regiões vitícolas da Eslovênia

Muitos dos vinhedos são plantados em colinas por meio de terraços, tradição mantida desde o século XIX quando o território pertencia ao império Austro Húngaro.

O país contava com uma diversidade de variedades autóctones que se extinguiram com a chegada da praga filoxera no final do século XIX. A devastação atingiu cerca de 70% das vinhas e hoje as uvas nativas remanescentes são poucas e de nomes exóticos para o consumidor. É o caso da Rebula (conhecida como Ribolla Gialla pelos italianos), Zelen, Vitovska e Ranina.

Atualmente o país tem apostado em variedades reconhecidas internacionalmente como Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Grigio, Pinot Blanc Malvasia e Furmint.

É em Prodravje, no nordeste do país, que se destaca um projeto de cunho familiar focado quase exclusivamente na produção de vinhos brancos (98% do volume) chamado P&F (Puklavec & Friends) Wineries. São 1100 hectares de vinhedos, dos quais 650 são próprios e os demais pertencem a viticultores cooperativados da região.

A variedade emblemática é a Sauvignon Blanc, uva que antes das guerras mundiais chegou a ocupar um terço dos vinhedos do país, mas foi substituída por uvas mais produtivas durante o governo comunista, reduzindo a mais de um terço sua área plantada, afirma Mitja Herga – enólogo chefe da P&F Wineries.

Sauvignon blanc inclusive é a especialidade de Mitja, cuja experiência vinificando esta uva passa pela África do Sul e Nova Zelândia.

Enólogo da P&F Wineries Mitja Herga

Enólogo da P&F Wineries Mitja Herga

“Apesar da pequena extensão territorial, a variedade de solos e microclimas em nossos vinhedos e de nossos parceiros é grande. Chegamos a colher a Sauvignon Blanc de diferentes lugares com intervalos de até 25 dias de diferença e vinificamos cada parcela por separado”, expõe o enólogo.

O resultado são cerca de 60 vinhos base feitos a partir de uma única variedade, fermentados em tanques de cinco a vinte mil litros. A partir da degustação e analise sensorial dos diferentes vinhos é que Mitja e sua equipe definem os cortes e as linhas nas quais cada tanque se destinará.

Outra uva expressiva da região é a Furmint, tradicional dos vinhos doces botritizados de Tokaji, da vizinha Hungria. Na Eslovênia é priorizada na produção de vinhos brancos secos, untuosos e de aromas complexos, mas também pode produzir longevos vinhos doces nos anos de clima favorável.

A combinação destas duas uvas – Sauvignon Blanc e Furmint – é uma das assinaturas da P&F Wineries, que também elabora brancos de corte tranquilos com Pinot Grigio, além de espumantes com Chardonnay e Pinot Blanc.

Típico vinho branco de corte da região de Podravje

Típico vinho branco de corte da região de Podravje

O potencial de guarda de seus melhores vinhos brancos, que podem envelhecer bem por décadas, tem seduzido críticos de vinhos respeitados do mercado inglês e norte americano.

O sauvignon blanc Gomilla acaba de ser premiado como melhor vinhos branco estrangeiro na edição 2016 da feira Expovinis, em São Paulo.

A seguir a impressão de dois dos vinhos mais destacados apresentados durante a feira.

Gomila Sauvignon Blanc 2015 – aromas intensos a cítricos, maracujá e capim limao. Na boca tem acidez destacada, untuosidade e uma longa persistência. Um branco versátil com estrutura para acompanhar para risotos diversos, peixes como bacalhau e salmão e queijo da canastra curado.

Sauvignon Blanc & Furmint 2015 – aromas herbáceos se misturam a notas de damascos secos e maça verde. Na boca é leve, de acidez super refrescante e um final sutilmente salgado. Perfeito para beber sozinho, acompanhar ostras, ceviche ou carpaccio.

Os vinhos da P&F Wineries podem ser encontrados na Vino Mundi (SP) e na rede Bistek (SC).

Anúncios

Das alturas de Santa Catarina

Há pouco mais de dez anos se plantavam os primeiros vinhedos na região serrana de Santa Catarina, até então conhecida pelos seus invernos rigorosos e pela produção de maçãs.

A partir de estudos desenvolvidos pelo instituto de pesquisa do estado, a EPAGRI, constatou-se que existia o potencial para o cultivo de variedades viníferas destinadas a produção de vinhos finos.

De lá pra cá, muito se experimentou e, entre erros e acertos, diversas vinícolas foram surgindo e engarrafando seus vinhos para o mercado.

Uma associação foi fundada, a ACAVITIS, visando fortalecer a imagem da região como produtora de vinhos no cenário nacional e como destino de enoturismo.

O resultado pode ser visto taça e, atualmente, o Planalto Catarinense se firma como produtor de Sauvignon Blancs de qualidade, tintos, roses e espumantes feitos a partir do tradicional corte de cabernet/merlot e o plantio e vinificação de variedades de origem italiana, lideradas pelo êxito da sangiovese.

As seguir, as palavras dos precursores da região, que a viram crescer e que hoje colhem os frutos de um projeto certeiro :

 

O antigo`a moda – tendências do vinho sul americano

A Viticultura de precisão foi uma grande revolução permitida pela ciência. O homem passou a controlar e irrigação, a  realizar adubação com fertilizantes industrializados e a usar equipamentos para tudo – até para medir o stress hídrico da planta. Este controle do homem sobre o vinhedo tornou-se possível graças aos avanços tecnológicos. Isso permitiu um padrão de qualidade mais uniforme das uvas, o que foi muito positivo para as vinícolas e para o mercado consumidor.

O mesmo aconteceu com a Enologia atual, em que todos os processos fermentativos são precisamente controlados. Dispõe-se de tanques de inox com controle de temperatura e micro-oxigenação induzida. Caso se queira dar aquele toque amadeirado que o consumidor tanto se acostumou, usam-se tanques revestidos com ripas de madeira.

Tanta tecnologia permitiu que as grandes como Concha y Toro e Gallo tenham condições de produzir milhões de litros de vinhos anuais corretos, sem defeitos. Porém, todos muito parecidos. Com vinhos tão similares, o consumidor passou a comprar as marcas de confiança e a buscar os melhores preços. Sem dar muita importância ou sequer saber sobre o processo produtivo da bebida ou as peculiaridades do vinhedo de origem. Parece que o “fazer-vinho” perdeu um pouco do seu romantismo. Virou mais uma mercadoria disputando espaço na prateleira.

Mas não se desiluda! Existe uma nova geração que adotou uma filosofia de cultivar videiras e elaborar vinhos que vai contra essa corrente “hipertecnológica”. Que busca resgatar métodos antigos de manejo de vinhedo e vinificação. para justamente apresentar algo novo. Um sabor diferente, de antigamente, quando não se dispunha de todos os recursos atuais.

O manejo do vinhedo parece ser o menos intervencionista possível. O homem deixa de exercer tanto protagonismo para que a natureza o faça. Regiões com solos pobres e clima seco, sempre foram ideais para isso. E Argentina e Chile têm terras como essas de sobra. O conceito de terroir parece ganhar cada vez mais força, em detrimento do nome da uva no rótulo. Não se quer mais vender apenas uma cepa, mas expressar uma região de origem. As particularidades do relevo, solo e clima que fazem aquele vinho único, difícil de se reproduzir em outros lados.

Projetos de pesquisa de terroir na Argentina e Chile estão ganhando força. O nome do vinhedo ou da região produtora recebem o mesmo ou até mais destaque que a(s) uva(s) usada(s) na sua composição. Belos e bem-sucedidos exemplos deste trabalho são a vinícola Undurraga (Chile) e a Manos Negras (Argentina e Chile). Ambas vinícolas se dedicam a pesquisar e produzir as uvas respeitando as terras onde elas melhor se adaptam. Desta forma, buscam elaborar vinhos que sejam o cartão de visitas daquela região, seja a Patagônia, o Vale do Uco, Casablanca ou Maipo.

Unduraga com a linha Terroir Hunters – idealizada pelo trio Pedro Parra, Rafael Urrejola e Roberto Pinto – busca provar que um Sauvignon Blanc ou Syrah chileno pode ser diverso segundo a origem e as características do vinhedo onde foi plantado. Lo Abarca, Leyda e Casablanca têm características únicas e podem produzir vinhos bem diferentes, ainda que da mesma uva. Além do trabalho com vinhedos antigos de uvas de pouco apelo comercial como a Carignan no vale do Maule que tem produzido resultados surpreendentes.

Uma uva, Três terroirs

Uma uva, Três terroirs

Já Manos Negras que, sob o comando de Alejandro Sejanovich, além de plantar a uva na zona onde ela produz melhores resultados, não distingue suas linhas de vinhos por mais ou menos tempo de repouso em carvalho. Nem sequer usa os jargões Reserva ou Gran Reserva para vender seus vinhos. A vinícola vai além e lança a linha de vinhos Soil Select, em que  a qualidade da bebida é determinada pela parcela de vinhedo com solos específicos ideias para a uva.

A enologia também tem transitado por métodos tradicionais. O mendocino Matías Michelini, da Passionate Wine, parece ter se cansado dos tanques de inox e passou a fermentar seus vinhos em tanques ovais de cimento. Matías também ousa ao produzir um vinho branco de cor laranja, ao fermentar as uvas com a casca e sem qualquer filtragem, batizado Torrontés Brutal.

Vinho laranja - "Torrontés Brutal"

Vinho laranja – “Torrontés Brutal”

A chilena De Martino, cujo enólogo é Marcelo Retamal,  depois de  vinificar em 347 vinhedos diferentes neste estreito e longo país, produziu um belíssimo e incomum tinto. Trata-se de um Cinsault, plantado no Vale do Itata, a 400 km ao sul de Santiago e bem próximo do Pacífico. A inovação não para por aí: o vinho é vinificado em ânforas de argila, com leveduras indígenas – próprias da uva – como se fazia séculos atrás. É um vinho sem filtrar, de um roxo mais opaco, com aromas florais e frutados delicados, fluído, fácil de tomar, nada alcoólico. Um vinho franco, um fermentado de uvas puro, sem manipulações ou ferramentas enológicas para torná-lo mais escuro, alcoólico, tânico, aromático, ou o que seja. Surpreendente.

Resgatando métodos ancestrais

Resgatando métodos ancestrais

Que essa geração de criativos viticultores e enólogos continuem nos surpreendendo, buscando no tradicional o novo. Buscando talvez um equilíbrio entre recursos tecnológicos e métodos ancestrais de trabalho. Elaborando vinhos que nos façam meditar. De aromas e sabores registrados para sempre em nossas memórias.

O que compro de bom com 20 reais?

Aos que crêem que vinho é um bem de consumo exclusivo das elites no Brasil, sugiro algumas dicas de compra de ótimos vinhos ao redor dos 20 reais. Afinal, para que a bebida se popularize no país é fundamental que o preço seja acessível.

Primeiro, é importante ter em conta a relação cambial do real versus outras moedas. Com a super valorização dos nossos bilhetes, ficou muito mais barato comprar produtos importados, sobretudo de países como Argentina, Uruguai e Chile.

Segundo, para que as coisas de fato aconteçam no Mercosul e as economias vizinhas sejam beneficiadas, medidas como o corte drástico de impostos – em alguns casos isenção total – sobre a importação de vinhos favoreceu ainda mais o preço final da bebida para o consumidor.

Já os vinhos provenientes de outros lados além de pagar mais impostos, tem um custo mais alto – pois são produzidos em dólares ou euros. Dificilmente por menos de 40 ou 50 reais você vai conseguir comprar algo interessante proveniente da Europa ou da América do Norte. É um tiro no escuro.

Portanto, não hesite! Sem margem de dúvida, os vinhos sulamericanos tem uma ótima relação custo-benefício e muitos deles são ideais pra iniciar o aprendizado sobre a bebida.

Uma bodega que produz excelentes vinhos por apenas R$19,90(!) é Alfredo Roca, de San Rafael, no sul do estado de Mendoza. Dias atrás tive a satisfação de provar o Roca Pinot Noir 2009, que está impecável: leve, frutado, fácil de tomar e sem muita madeira (um avanço em relação ao 2007).

Tive a oportunidade de conhecer a vinícola, o enólogo e inclusive participei da colheita – simbólica – em 2010. Quando conversei com Alejandro Roca, ele havia comentado que estavam exportando bastante ao Brasil. Para minha surpresa, não imaginava que os preços estivessem tão bons por aqui.

Outras sugestões, nesse caso de vinhos brancos são o Quara Torrontes (R$14,90!), de Salta, no norte Argentino, super aromático e combinável com tudo e o Ventisquero Sauvignon Blanc (R$21,90), do Vale de Casablanca no Chile, de excelente acidez, é perfeito como aperitivo.

Outro Chileno de terminar a garrafa sem se dar conta, é o rosado de Carmenére Nahuen (R$24,90) do Vale do Maipo. Até agora o rosado que mais me seduziu.

Lembrem-se sempre de buscar pelas safras mais recentes, sobretudo para os vinhos brancos e rosados. Estes são vinhos “comprou-tomou”, nada de guardar e esperar para ver se melhora com o tempo…